sábado, 26 de outubro de 2013

Marta e Maria em Betânia

Nas Escrituras, encontramos quatro eventos associados ao Senhor Jesus Cristo que têm haver com a cidade de Betânia, com o lar de Marta, Maria e Lázaro. Nestes quatro episódios, o Senhor Jesus Cristo ocupa o lugar preeminente.
A passagem de Lucas é o primeiro. Aqui temos uma cena que aconteceu em Betânia. Betânia era uma pequena cidade próxima de Jerusalém, pouco além do monte das Oliveiras, do lado oposto ao Getsêmani.
Havia muito pouca distancia entre estas duas cidades. Jerusalém era uma cidade grande, onde se encontrava o templo. Era o centro religioso de toda a nação e de todos os judeus que estavam dispersos pelo mundo. No templo havia o sacerdócio exercendo o seu ministério. Ali se cumpria estritamente a ordem de Deus dado em Levítico, e as instruções de Davi ao seu povo. Tudo estava centrado em Jerusalém.

Rejeitado em Jerusalém
O Senhor tentou desenvolver o seu ministério na cidade de Jerusalém, e purificou o templo, tentando limpar o caminho para que ele pudesse estar em sua casa. Esse templo estava poluído. Era a casa de Deus; no entanto, havia muitos mercadores ali. Então, o Senhor tenta fazer dessa casa o que realmente era, uma casa de oração. Então, ele diz: «por que fazeis da casa de meu Pai um covil de ladrões?».
Nesse momento, ainda o templo era «a casa de meu Pai». No entanto, quando chega o fim do seu ministério, quando ele chora sobre Jerusalém, depois de ter sido rejeitado sistematicamente, uma e outra vez, de diversas maneiras, ele diz: «A sua casa será deixada deserta». Não diz «a casa de meu Pai», mas «a sua casa». O templo já tinha deixado de ser a casa de Deus. Então, depois, os discípulos, dizem-lhe: «Olha, que pedras e que edifícios», e o Senhor lhes diz: «Em verdade vos digo, que disto não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada».
A grande atração do mundo religioso se tornou como o templo de Jerusalém, deixou de ser a casa de Deus. Deus já não habitava ali, mas habitava na pessoa do Senhor Jesus. Por isso, em João capítulo 2, diz: «Mesmo que derribe este templo, eu em três dias o reedificarei», e «falava do templo do seu corpo». Nesse momento, ele já era o templo de Deus.
Mas depois, quando nós vamos ao livro de Atos, o testemunho de Estevão é muito claro, mas ele também foi rejeitado. O testemunho de Estevão é que os tempos de Moisés tinham mudado, e que tinham chegado novos tempos. Este é o testemunho a respeito da igreja como templo do Espírito de Deus.
Então, há uma transição de Jerusalém para Cristo em seu corpo de carne. O primeiro templo; em seguida Cristo em seu templo de carne, e depois a igreja como corpo de Cristo.
Como vocês sabem, a sorte de Jerusalém foi muito triste. O templo foi derrubado no ano 70 depois de Cristo, e efetivamente, não ficou pedra sobre pedra.
Mas, antes disso, aqui, nesta passagem de Lucas capítulo 10 e em outras passagens que veremos, encontramos o Senhor nos mostrando antecipadamente, como em uma metáfora, como seria a casa onde ele habitaria; como teria que ser a igreja neotestamentaria. Porque um novo sistema religioso se estabeleceria até dentro do cristianismo, a imitação do sistema religioso judaico. O próprio ensino do Senhor seria deixado de lado, de modo que chegariam a constituir também uma religião, também com templos sagrados, com serviços sacerdotais, com rituais muito rigorosos, com formalismos e tradições. Com o passar dos séculos, isso é o que veio a ocorrer.
A cristandade atual tomou tantas coisas do modelo judaico, que é assombroso ver como a história se repete; como se repetem os mesmos enganos que cometeram os judeus: um livro sagrado, um lugar sagrado, um sistema sacerdotal, um conjunto de tradições que têm tanto valor como a palavra de Deus. Isso é o que acontecia com os judeus; isso é o que ocorre hoje em dia com a cristandade.
Então, qual é o trabalho do Senhor hoje por seu Espírito? Às portas da vinda do Senhor Jesus Cristo, o Senhor está trazendo uma renovação profunda, não só de coisas externas, mas também do essencial; uma absoluta mudança de direção, de tal maneira que Cristo possa ter outra vez a sua igreja como ele a planejou, onde ele seja o centro e também a circunferência, onde ele esteja no centro e esteja nos extremos, onde Cristo seja tudo em todos.
Não necessitamos nada mais além de Cristo. Não necessitamos de um tipo especial de vestimentas, nem certa formação teológica. Não necessitamos absolutamente de mais nada, porque Cristo é suficiente, porque ele é a vida, porque ele é a verdade, é a realidade. A verdade é a realidade não a aparência. Não é um gozo externo, é um gozo profundo. Não é uma vida de aparências, é uma vida real, que surge do coração pelo Espírito Santo.
Deus está restaurando a sua igreja conforme o seu modelo, e aqui temos uma metáfora do que é a igreja: Betânia.

O começo
O Senhor Jesus não encontrou proteção, não encontrou acolhida em Jerusalém. Então, ele caminhava um pouco mais e chegava a Betânia. E quando ele chegava a este lar em Betânia, tudo girava em torno da sua pessoa. Aqui temos duas mulheres que estão centradas nele; uma de uma maneira; outra, de outra maneira. O Senhor aprova a uma e reprova a outra.
Qual é a diferença entre estas duas mulheres? As duas amavam ao Senhor, as duas queriam servir ao Senhor, tinham muitos desejos de agradar o seu coração. Isso é muito bom. Todos nós queremos ao Senhor, todos queremos servir ao Senhor; mas há uma forma aprovada e há uma forma reprovada. Então, aqui o Senhor nos mostra qual é a forma que ele quer.
Marta estava muito atarefada. Tinha perdido a paz; ela estava cheia de inquietação e de soçobra, cheia de muitos afazeres. E o Senhor chamou a sua atenção: «Olhe para a sua irmã; ela escolheu a melhor parte». E o que é que Maria fazia? Ela fazia tão pouco; praticamente não fazia nada.
Se nós tivéssemos que aplaudir os méritos destas duas mulheres, então teríamos que aplaudir a Marta, porque ela estava preocupada se o Senhor tinha fome; Maria, ao contrário, estava sem fazer nada, aos pés do Senhor, ouvindo a sua palavra. E ali, o grego nos dá a entender que ela permanecia nessa atitude de ouvir o Senhor. Não era um escutar momentâneo, mas era uma atenção permanente e duradoura.
Como podemos conhecer uma pessoa? Escutando-a. As palavras do Senhor mostravam o seu coração; ele se revelava através do que falava.
Nós temos mais necessidade de escutá-lo do que de fazer coisas para ele. Esse é um grande problema que temos que corrigir. Estamos acostumados a fazer coisas para Deus, e se não as fazemos nos sentimos incomodados; então, não ficamos em paz. No entanto, aqui o Senhor nos mostra que nós nada podemos fazer para ele se primeiro não o escutarmos atentamente. Por isso, em muitas passagens da Escritura, nos mostra que, quando tentamos fazer coisas para Deus, ele tem que nos interromper. Quando nós queremos falar antes de ouvir, o Senhor nos faz calar.
Pedro, muitas vezes, falou, e Deus teve que interrompê-lo e teve que corrigi-lo. E Pedro ficou muito envergonhado. Aqui também, Maria não falou; mas Marta falou, apressadamente, e o Senhor teve que corrigi-la. Por quê? Porque ela não tinha estado escutando primeiro. Nós não podemos fazer algo para Deus sem escutar primeiro. A primeira coisa que temos que fazer quando vamos para o Senhor é fechar a boca e abrir os ouvidos. E também abrir os olhos para contemplá-lo.
Por isso, ocorreu muitas vezes com pessoas muito grandes e importantes no mundo religioso, quando tiveram um verdadeiro encontro com Cristo, quando chegaram realmente a conhecer o que é a casa de Deus, e tentaram ensinar, ou pregar, tentaram fazer o mesmo que tinham feito por anos, o Espírito os fez calar, e se sentiram envergonhados. E tiveram que passar meses, às vezes anos em silêncio, escutando, aprendendo, contemplando.
O conhecimento de Cristo que nós trazíamos antes de conhecer realmente a Jesus pode ser mais um estorvo que uma ajuda, porque está cheio do elemento humano, porque está cheio de teologia. Mas, o verdadeiro conhecimento do Senhor Jesus só pode ser dado pelo Espírito Santo. O Senhor Jesus disse: «Ele virá, ele dará testemunho de mim, ele vos revelará todas as coisas, ele vos guiará a toda a verdade, ele dará testemunho de mim, e vós também».
Mas primeiro, «ele dará testemunho de mim». O único que pode falar com verdade a respeito de Jesus é o Espírito Santo. Nós não podemos, mesmo que intentemos. Mesmo que intentemos uma frase bonita, não serve. Tem que sair daqui, do coração, não da cabeça. Do coração, onde está o Espírito de Deus, porque ele é único que sabe falar de Jesus.
Então, para que nós troquemos o foco da nossa ação, para que deixemos de confiar em nossa mente e nos voltemos para o testemunho do Espírito no coração, tem que haver alguns fracassos, temos que ser envergonhados algumas vezes, para que possamos atentar que a carne e o sangue não podem – só o Espírito de Deus.
Então, Marta foi interrompida e Maria foi elogiada. Esta é a primeira cena que ocorre em Betânia, e aqui nos mostra como a igreja tem que estar diante do Senhor, como temos que começar a viver a vida de igreja, como começaremos a conhecer realmente ao Senhor. Este é o começo: não fazendo coisas para ele, não perdendo a paz por coisas externas, mas nos sentando aos pés de Jesus, ouvindo-o, contemplando-o, aprendendo a lhe amar.
Este é o começo, sentados aos seus pés. Ele é o Senhor, ele é tão importante. Faz-nos tão bem que nós desçamos de nossa altura, que nossa cabeça não esteja por cima da dele, que não esteja além dos seus joelhos. Aos pés do Senhor. Que isto fique muito claro, que ele está por cima, e que nós somos servos. Ele é o Senhor.

Os amigos têm que morrer
Vejamos a segunda cena, em João capítulo 11. Neste capítulo, encontramos a ação que acontece também em Betânia, na mesma casa de Marta, Maria e Lázaro. E aqui nos revelam alguns aspectos muito interessantes da relação de Jesus com esta família.
Vocês sabem que em grego há várias palavras para dizer amor, diferente do espanhol ou do português. E aqui nós encontramos, nesta passagem, que o amor de Cristo por essa família era muito completo. O seu amor era o amor ágape (V. 5), e também o amorfileo (vv. 3, 36), os dois tipos mais nobres de amor. O primeiro é o amor com que Deus ama as suas criaturas, e o segundo é o amor com que um homem ama ao seu amigo. O amor de Deus, em que se envolve a vontade, a totalidade do ser, e também o amor de sentimentos e emoções que é próprio dos seres humanos.
O Senhor Jesus amava destas duas maneiras a esta família. Quer dizer, para eles, ele era o Senhor, mas também era o seu amigo. Este vislumbre do Senhor Jesus nos comove muito. Ele tinha uma relação horizontal com eles. Ele encontrava nesse lugar não só uma acolhida como Deus, mas também como amigo. Porque nós temos necessidade de amigos, porque nós não somos seres unilaterais ou simples. Nós somos seres complexos; o nosso coração é amplo, e nós também precisamos ter amigos. E aqui, o Senhor Jesus tinha esta família, aos quais ele amava com amor ágape e com amor fileo.
Mas um dia, ocorre uma desgraça sobre esta família. Tudo estava claro, e de repente vem a noite. O Senhor Jesus comia com eles, e eles se alegravam com ele. Ele abria o seu coração com os seus amigos, e os amigos o compreendiam. Ele podia dizer os seus segredos para eles; porque essa é a diferença entre um amigo e outro que não é. Quando você tem amigos, você pode falar os segredos com eles, pode abrir o coração com confiança. Então, nós podemos ver que o Senhor Jesus tem seguidores, tem servos e também tem amigos. Há alguns que são só servidores, e outros que também são servidores e amigos.
No livro de Gênesis capítulo 18, vemos que Deus tinha um amigo sobre a terra, e esse fato é uma coisa extraordinária. Um dia, Deus decide ir ver o seu amigo Abraão, em pessoa. Deus desceu do céu, e caminha como um homem,  foi ver o seu amigo Abraão, e levou-lhe um presente, como os amigos fazem com os seus amigos: a notícia de um filho que ele ia ter. E seu amigo Abraão lhe recebeu com comida, e depois da comida, eles conversaram, e saíram para caminhar juntos. E nesse passeio, Deus diz a seu amigo: «vou destruir Sodoma e Gomorra». Ninguém mais sabia, só o seu amigo Abraão; antes que ocorresse, o seu amigo sabia.
É algo maravilhoso que o Deus criador dos céus e da terra, que não tem necessidade de nada, humilhe-se a si mesmo, desça de sua grandeza e caminhe pela terra procurando amigos. Isto é algo maravilhoso.
Então, assim como Abraão era amigo de Deus, aqui há outros amigos que o Senhor Jesus teve: Marta, Maria e Lázaro. Ele tinha doze discípulos e três amigos. Eu não sei qual seria a honra maior, o ser discípulo ou ser amigo. Mas é maravilhoso que o Senhor estenda esse círculo dos doze, para incluir três pessoas mais, e entre esses três, duas mulheres. Irmãos, isto não vos parece algo surpreendente? Mas foi assim.
E aqui temos a morte de Lázaro, e as suas irmãs o choram. Mas a forma como elas choram é diferente; Marta chora de uma maneira e Maria chora de outra maneira. Se vocês lerem atentamente a passagem, vão notar que elas choram cada uma de acordo com o seu caráter, e cada uma de acordo ao que elas faziam em Lucas capítulo 10.
Em Lucas capítulo 10, Marta fala, fala e fala; aqui, em João 11, de novo, Marta fala. Em Lucas, Maria tem a boca fechada; aqui, ela fala muito pouco, e chora mais. Quase tudo o que Maria faz aqui é chorar, e esse pranto de Maria tocou o coração do Senhor, e ele também chorou. Não foram as palavras de Marta que comoveram o coração de Jesus – foi o pranto de Maria.
Essa mesma Maria que esteve aos pés de Jesus escutando a sua palavra, conhecendo-o, contemplando-o, é com quem o Senhor chorou aqui. Ela tinha se devotado primeiro ao Senhor, e ele se deu a ela quando ela estava na dor, no sofrimento. Quem pode tocar o coração de Jesus? Quem pode comover o Senhor até as lágrimas? Só aqueles que estiveram aos seus pés, contemplando-o, amando-o e escutando-o.
Esta é uma cena muito importante. Vemos um dos seus amigos morto – e o Senhor não evita a sua morte. Porque é necessário que Lázaro morresse; é necessário que o homem natural mora. Depois de escutar tantos segredos dos lábios do Senhor, a carne e o sangue não podem permanecer em pé. Tem que haver uma morte, para que haja uma ressurreição; tem que haver um milagre. As coisas no plano natural não correspondem com o plano espiritual. Então, a sorte de Lázaro aqui é a sorte de todos os amigos do Senhor.
Esta mensagem já pregamos aqui, mas é necessário dizê-lo uma vez mais. Lázaro tem que morrer; ele tem uma enfermidade de morte, porque ele é filho de Adão. Ele tem que ser ressuscitado em Cristo Jesus, tem que escutar as palavras do Senhor: «Lázaro, vem para fora!». ‘Adão, você não serve assim; o teu destino é a sepultura. Se não houver ressurreição, então você não serve’. Esta é uma lição muito importante.
E também é muito importante que, quando a igreja está sofrendo a dor, a aflição, o Senhor parece estar longe por um tempo; mas, no momento preciso, ele se manifestará. O Senhor veio no quarto dia, quando a morte já tinha se assenhoreado, quando o corpo de Lázaro já estava se corrompendo. Já não havia nenhuma esperança, então o Senhor veio. Quando nós perdemos a esperança, quando não há nada a fazer da nossa parte, quando já fizemos todo o possível e fracassamos, então o Senhor vem, e a sua palavra nos levanta. Ninguém mais pode fazer isso; só o Senhor Jesus.
Talvez você esteja vivendo um momento como este, talvez você esteja se desesperando em sua vida. Você está consciente que está morrendo, mas não pode fazer nada para evitar. E os que estão ao seu lado também se assombram, e querem ajudar; mas, não podem ajudar. É um momento de desespero absoluto. A morte, que terrível é a morte! No entanto, é a oportunidade de Deus para nos dar vida nova, a vida de ressurreição, o poder de uma vida nova, uma vida que pode gerar mais vidas.
Nós vemos aqui que, à partir da ressurreição de Lázaro, muitas pessoas queriam vir a Betânia, para ver Jesus e também a Lázaro. Betânia foi, à partir desse momento, um lugar especial. Havia duas pessoas que queriam conhecer: não só a Jesus, mas também a Lázaro.
Como é uma pessoa que esteve morta e tornou a viver? Como será o seu olhar? Terá um cheiro diferente? Deve ser interessante conhecer uma pessoa que esteve morta e que agora vive. Betânia sempre tem esta classe de pessoas – que passaram pela morte para a ressurreição – e por isso é um lugar atrativo. Não é a carne e o sangue governando; há uma vida superior que flui através de nossos corações e toca outros corações.
O que torna atrativo este lugar? Cristo está aqui. Mas também tem que ter Lázaros ressuscitados, para que este lugar seja um lugar muito agradável, onde os mortos encontrem vida.

Oferecendo-se ao Senhor
Vejamos João capítulo 12. Poucos dias depois da cena anterior, temos aqui os mesmos personagens – Marta, Maria e Lázaro, e o Senhor Jesus. Mas há uma grande diferença. Aquele que estava morto ressuscitou; aquele que tínhamos perdido, o temos recuperado. Então, o gozo de Marta e de Maria também foi muito maior. A desesperança delas se transformou em uma bendita realidade. Agora o seu irmão estava ali.
Então Maria busca o que tem de mais valioso, um perfume de nardo puro, muito valioso. Esse perfume valia o salário de muitos dias de trabalho de uma pessoa, quase um ano de trabalho de um trabalhador. Era escandalosamente caro. Como uma mulher pode ter tanto dinheiro em um frasco de perfume? Mas, esta é uma figura. O valioso é o coração do homem, é a nossa alma; isso é o que tem o maior preço para o Senhor. E isso foi o que Maria ofereceu ao Senhor, em gratidão pelo que ele tinha feito com eles.
Maria entregou o que tinha de mais valioso – a sua própria vida, a sua própria alma. E então a casa se encheu do aroma do perfume. A igreja se enche do aroma do perfume, quando as Marias se oferecem ao Senhor desta maneira. Mas esta é uma atitude de gratidão; não de obrigação, não é uma lei. O Senhor não poderia aceitar algo feito por obrigação. Tudo na igreja é por amor. Aqui não há contratos de obrigatoriedade, não há deveres, nem direitos. É o amor de Cristo, é a gratidão a Cristo que move os corações a render-se a ele.
Todos os serviços que se fazem na casa de Deus são por amor. De tal maneira que Maria nos mostra um passo mais à frente. Maria está nos ensinando aqui, tal como nos ensinou em Lucas 10, e como nos ensinou em João 11. Temos que aprender com esta mulher, uma mulher maravilhosa.
Ela fez algo escandalizador. Todos se escandalizaram quando ela fez o que fez; todos os discípulos, sem exceção. Se você ler atentamente os quatro Evangelhos, poderá notar que não só um ou dois; todos os discípulos consideraram que Maria tinha feito um esbanjamento. Tinha esbanjado o perfume. Eles consideraram que teria sido muito melhor ajudar os pobres que ungir a Jesus.
Então, aí nós encontramos um dilema muito grande – os pobres, ou Jesus. Há muita gente na cristandade que já fizeram a sua eleição. Eles seguiram o caminho dos pobres. Eles estão vendendo o perfume para dar de comer aos pobres. Humanamente falando, isso é muito aplaudido; mas, o Senhor Jesus atraiu a atenção para si.
Dá-nos a impressão de que o Senhor pode ter dito a Maria: ‘Maria, perdoa-os, eles não sabem o que estão dizendo; só você entende o que eu sou. Você é a única que sabe o valor que eu tenho. Eles são meus discípulos, mas não sabem. Só você, Maria’. Apenas uma pessoa, uma mulher, viu nesse momento o valor de Cristo, quando ainda era um homem como você ou como eu, com uma aparência tão comum como você ou como eu. Ela teve olhos ungidos para lhe ver de verdade.
Irmãos e irmãs, hoje esse é o nosso grande problema também. Custa-nos ver o valor inefável que o Senhor Jesus tem. Há tantas coisas que parecem valiosas, coisas importantes que nos rodeiam: uma religião muito bem estabelecida, certos programas sociais, programas de ensino teológico; temos tantas coisas boas ao nosso redor para investir nossa vida nelas. E seguimos aquelas coisas, e damos as costas para o Senhor. Os olhos estão fechados; nos agarramos a bagatelas, a pequenas coisas, e deixamos o Senhor.
Maria teve os olhos ungidos. Foi a única que ungiu o corpo do Senhor; só as suas mãos derramaram perfume sobre o seu corpo. As outras mulheres, depois, não puderam, porque ele já tinha ressuscitado. Podem ver o privilégio que ela teve? Acariciar o corpo e ungi-lo. Dizer: ‘É tão precioso, é tão valioso para mim. Se tivesse algo mais valioso, eu o derramaria sobre ti. Mas isto é tudo o que tenho de melhor; é teu Senhor. Sou tua, Senhor’.

O preço de seguir ao Senhor
Quando Martin Lutero publicou as 95 teses, ele sabia o que viria contra ele. O seu futuro como teólogo estava condenado, a sua paz com a hierarquia católica tinha acabado. Tantas coisas estavam sendo lançadas do seu coração quando deu um passo de fé, de obediência: «Oh, eu não queria fazer isto, mas não posso fazer outra coisa. Que Deus tenha misericórdia de mim. Todo o inferno se levantará contra mim, todos os príncipes irão querer me matar, os grandes líderes irão me perseguir. Mas não tenho outra opção. Jesus me cativou; a sua palavra encheu o meu coração».
Ele teve que pagar um preço: o desprezo de muitos, a crítica de muitos, a perseguição de muitos. Nós poderemos pretender estar isentos da dor e da perseguição? Nós queremos ser discípulos de Jesus sem jamais sofrer a incompreensão? Maria teve o valor; fez uma audácia, e o Senhor a aprovou; e outra vez, e a aprovou novamente. Todas as vezes, o Senhor Jesus aprovou a Maria. Que sensibilidade para interpretar o coração de Jesus! Como a daquele leproso que foi curado e volta para agradecer ao Senhor.
Tinham sido curados dez leprosos, e todos foram aos sacerdotes; mas apenas um voltou para os pés do Senhor. E lhe diz: «E onde estão os outros nove?». O Senhor tinha mandado os dez ir para os sacerdotes; no entanto, depois pergunta: «E onde estão os outros nove?». Alguém poderia lhe ter dito: ‘Senhor, tu os mandaste; eles lhe obedeceram. Como vão estar aqui, se tu os mandaste?’. Mas ele pergunta: «E onde estão os outros nove?», e essa pergunta revela que o coração do Senhor queria algo a mais do que suas palavras disseram. Isso é o que o seu coração sentia; esse desejo do seu coração, só um foi capaz de conhecê-lo, e ele veio aos pés de Jesus.
Por isso, há tantas coisas escritas, tantas boas coisas escritas na Bíblia, que às vezes podem chegar a ser um tropeço para um verdadeiro amor e consagração a Cristo Jesus. Por guardar os mandamentos, não amamos a Jesus. Que contraditório! Parece absurdo, não? Mas também ocorre assim. Uma boa religião, uma boa doutrina, uma boa tradição podem ser um estorvo para seguir a Jesus.
Seguir a Jesus, sempre, significa seguir um caminho desconhecido. Todos os grandes reformadores da história, que hoje em dia nós aplaudimos, seguiram um caminho que não conheciam. Quando olhamos para trás, os aplaudimos; mas se tivéssemos vivido em seus dias, talvez nós os tivéssemos condenado. Porque nós estamos muito amarrados a uma religião, a um sistema, a uma tradição. Eles foram valorosos, eles deixaram o mundo para trás, e avançaram seguindo a Jesus.
Seguir a Jesus, irmãos, é muito diferente de seguir uma religião. É um caminho sempre novo. Eu não sei qual vai ser o meu próximo passo, não sei qual vai ser o amanhã. Estarei preso? Estarei sendo aplaudido? Estarei sendo açoitado? Não sei. É um desafio permanente, é uma incógnita permanente. Mas, o Senhor Jesus disse: «Aquele que quiser vir após mim, tome a sua cruz, e siga-me». Não diante dele, porque nós não conhecemos o caminho. É atrás dele.
Se você conhecer o caminho que estiver seguindo, então não está seguindo a Jesus. Se você conhecer tudo o que terá que fazer, tem um programa, tem um rota. Quem te deu essa rota? Não foi Jesus. Ele só mostra o próximo passo, porque ele quer que andemos por fé. Cada dia é algo novo, um desafio novo, um novo passo de fé, como Moisés no deserto, como seguindo o Invisível. Amados irmãos e irmãs, este é o caminho da igreja.
A pior desgraça que pode ocorrer para vocês, como testemunho do Senhor aqui, é que alguém viesse de fora, e lhes mostrasse todo um roteiro, planejado e programado para os próximos dois anos. Isso seria a sua ruína. Ninguém pode fazer isso. Tudo o que podemos dizer são alguns princípios como Deus opera; mas os tempos, as ocasiões, a direção, a sua vontade específica para o dia a dia, isso têm que ser conhecido somente seguindo a Cristo Jesus. Ninguém pode fazer esse trabalho – só o Espírito Santo.
Então, é um engano pensar que de outro lado pode vir ajuda para nós. O que pode vir é uma confirmação, uma palavra de consolo, de ânimo; mas o caminho vocês fazem seguindo o Senhor. O caminho para o seu testemunho em Londrina não é igual ao de nenhuma outra cidade. Deus opera aqui de uma maneira absolutamente nova a como ele está operando em Curitiba ou em Joinville. Deus não se repete. Assim, irmãos e irmãs, não há outra opção. É olhar para o Senhor, e perguntar ao Senhor: ‘Que passo daremos amanhã?’.

Foi e voltará olhando para Betânia
E a quarta cena, Lucas capítulo 24:50-51. «E os tirou para fora até Betânia, e elevando as suas mãos, os abençoou. E aconteceu que os abençoando, separou-se deles, e foi levado acima ao céu». No livro de Atos capítulo 1, os anjos disseram aos discípulos: «Assim como lhe vêem ir, assim tornará para vós».
O Senhor Jesus não subiu ao céu na Galiléia, mas em Betânia. O seu coração estava muito ligado a Galiléia. Ali tinha iniciado e tinha desenvolvido grande parte do seu ministério. Vocês sabem que na Galiléia ele foi mais aceito que na Judéia? Ele tinha um carinho especial pela Galiléia; de fato, ele era galileu, ele falava com sotaque galileu. Jesus era um galileu; mas ele subiu ao céu em Betânia. Ele poderia ter escolhido muitas cidades, mas esta tinha um lugar muito especial em seu coração.
Christian Chen explicou que, para que ele pudesse estender as suas mãos para Betânia e abençoar os seus amigos, as suas costas tinham que estar voltadas para Jerusalém. Jerusalém deu as costas para o Senhor, e agora o Senhor abençoa os seus discípulos em Betânia, com o seu rosto voltado para Betânia, com o seu olhar cheio de esperança para Betânia. ‘Logo voltarei. Vou, mas logo estarei de volta. E da mesma maneira que vou, assim voltarei, olhando para Betânia’.
Irmãos e irmãs, nós formamos parte de Betânia, ou formamos parte de Jerusalém? No que estamos ocupando o tempo? No que estamos investindo as forças, as nossas energias? É uma boa pergunta que cada um de nós tem que responder. O lugar onde eu me reúno, é um lugar onde Cristo é o centro? Os olhos estão voltados para ele permanentemente, ou há muitas coisas que inquietam o nosso coração e nos tiram a paz?
O lugar onde nos reunimos é um lugar onde permanentemente há pessoas que morrem e ressuscitam? Uns morrem hoje, outros amanhã, outros morrerão a outra semana; mas sempre em Betânia há alguém morrendo, experimentando os dores da morte, do eu, da alma, dos seus próprios planos e desejos. Mas também, sempre há alguém ressuscitando em Betânia; sempre há alguém manifestando uma vida nova, e sempre há Marias que estão oferecendo-se ao Senhor.
O lugar onde nós estamos é um lugar onde o Senhor Jesus se sente cômodo, onde ele pode se sentar e ser admirado e escutado? Ou o deixamos falando sozinho, com os seus pés cheios de pó? Não há ninguém que lave os seus pés? Não há ninguém que acaricie o seu cabelo? O ambiente onde nós estamos é um ambiente onde há muitas outras coisas que são valorizadas, e o Senhor Jesus nem tanto, porque amar ao Senhor Jesus dessa maneira pode ser ‘fanatismo’?
Há no ambiente onde nos reunimos pessoas que dizem: ‘Cristo todos os dias’? Esse é o único tema que conhecem? Não há nada mais? Um pouquinho de psicologia… por que não introduzem um pouquinho de filosofia, um pouquinho de auto-ajuda? Isso também é bom. Vivemos em uma sociedade progressista. Cristo é tão longínquo e antigo; as suas histórias são tão repetidas’.
Cristo pode ser rotineiro? Ele se repetirá até nos cansar? Quando provamos algo dele, nós sabemos isto: Nunca. Porque, quando saímos de uma reunião onde Cristo esteve no centro, nunca vamos sair como chegamos. Sempre iremos renovados, consolados, descansados. Uma sensação de vida, não necessariamente emoção – é a maravilhosa vida de Cristo, que flui através de todos os membros do seu Corpo. É algo maravilhoso; isso é a igreja.
Irmãos e irmãs, que o Senhor tenha misericórdia de todos nós, para que ele encontre, em nosso meio, uma Betânia. E se ele encontrar descanso aqui, nós acharemos descanso também. Absoluto repouso, plena satisfação; porque se ele estiver conforme, nós também o estaremos.

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