quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Sedição de Miriã e Arão


A natureza terrena é de fato incurável e por isso recebeu a sentença de morte na cruz, quando Cristo morreu em nosso lugar, para que o velho homem fosse crucificado juntamente com Ele.
O ciúme, a inveja, o orgulho e todas as demais obras da carne estão ligadas à natureza terrena, e se não forem mortificados diariamente pelo carregar da cruz, haverão de se manifestar num ou noutro momento, independentemente de sermos tentados ou não por Satanás.


As obras da carne não se refreiam e não podem ser contidas, mesmo diante de pessoas amadas e que somente nos tenham feito o bem, pois de um modo ou de outro, se não andarmos no Espírito, haveremos de manifestar a nossa ingratidão a eles, ciúme, e até mesmo aversão, ainda que não haja nenhum motivo real para isto. 
Assim, encontramos registrado, no 12º capítulo de Números, que tanto Arão quanto Miriã vieram a questionar a autoridade de Moisés, em razão de não ter se casado com uma israelita, mas com uma cuxita, isto é, uma descendente de Cuxe, um dos filhos de Cão, filho de Noé, não sendo, portanto de origem semítica, isto é, da descendência de Sem, da qual procediam os israelitas. 
Todavia, na verdade, isto era apenas um pretexto, um argumento para esconder o real motivo daquela contestação: ciúme, pois se compararam com Moisés, dizendo-se tão importantes quanto ele, pois Miriã era profetisa e Arão Sumo Sacerdote, e além disso eram irmãos de Moisés, mais idosos do que ele. 
Quando nos falta o entendimento que devemos cultivar uma submissão de coração a todos aqueles que Deus tem constituído como líderes espirituais sobre nós, ficamos mais sujeitos a estes ataques da carne, que nos levam a nos rebelar contra eles, para o nosso próprio mal, assim como se dera com Miriã e Arão, que foram humilhados pelo Senhor, e submetidos ao Seu juízo, particularmente Miriã, que ficou leprosa e foi curada exatamente pela intercessão daquele contra o qual havia falado.
Quem quiser servir de fato ao Senhor deve estar preparado para estes dolorosos ataques de carnalidade da parte daqueles que mais estimamos. 
Por privarem de intimidade conosco serão exatamente eles os que mais resistirão a reconhecer que temos de fato uma chamada de Deus para a liderança, e haverão de nos resistir não raro, por muito tempo, nos causando muitas dores. 
Contudo, devemos seguir o exemplo de Moisés, em sua mansidão e paciência, intercedendo em favor deles, para que sejam curados da sua doença espiritual de rebelião, que nem sempre apresentará sintomas exteriores visíveis como o da lepra de Miriã, que era a manifestação exterior de uma lepra interior do espírito. 
Arão estava acometido da mesma doença espiritual, mas não apresentava nenhuma marca exterior que revelasse a sua doença.
Moisés era um leão na causa de Deus, mas um cordeiro na sua própria causa, e assim não se ressentiu com a murmuração de Arão e Miriã contra ele. 
Ele não lutou para fazer prevalecer a sua própria honra e autoridade. 
Em face da sua submissão, o Senhor agiu em favor dele, e fez da sua causa a Sua causa, e disse as seguintes palavras a Arão e Miriã na presença de Moisés:
“Ouvi agora as minhas palavras: se entre vós houver profeta, eu, o Senhor, a ele me farei conhecer em visão, em sonhos falarei com ele. Mas não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa; boca a boca falo com ele, claramente e não em enigmas; pois ele contempla a forma do Senhor. Por que, pois, não temestes falar contra o meu servo, contra Moisés?”
Aqui é dito por Deus que Ele se manifestava a Moisés em teofanias, para se comunicar com ele. 
Moisés podia ver a Deus numa provável forma humana, enquanto a outros não era concedido terem tal visão, assim como ocorreu com Paulo em seus dias, quando teve a visão da glória de Cristo numa grande luz que o cegou, no entanto aos que estavam com ele, não lhes foi concedido terem a mesma visão. 
Moisés não era um profeta comum, não apenas pelo fato de como Deus lhe aparecia, mas também por ter sido fiel em toda a casa de Deus, ou seja, ele não deixou de revelar a Israel toda a vontade do Senhor, exatamente na forma como esta lhe foi revelada e ordenada. 
Deste modo, era fiel a toda a casa de Israel, que era a casa de Deus, pois nunca disse aos israelitas nenhuma palavra a mais ou a menos de todas as palavras que o Senhor lhe ordenara que transmitisse ao Seu povo. 
Deus sabia que podia confiar no seu caráter e em toda esta sua fidelidade, e não foi por acaso que lhe havia separado para ser o seu profeta por excelência, para revelar a Lei e ser o mediador da Antiga Aliança; organizando, dirigindo e orientando Israel nos Seus caminhos. 
Esta passagem das Escrituras é um grande alerta para todos os que são da Igreja de Cristo, especialmente no que se refere a se rebelarem contra os líderes que o Senhor tem constituído sobre eles. 
O fato de termos os nossos pecados perdoados em Cristo, por estarmos numa Nova Aliança, que foi instituída no Seu sangue, não nos torna irresponsáveis pelos nossos atos, conforme os preceitos desta mesma Aliança, que afirma que estamos debaixo da correção de Deus, por termos sido tornados seus filhos.
Assim como muitos foram disciplinados por Deus nos dias apostólicos, do mesmo modo Ele continua a disciplinar todos aqueles que são Seus filhos. 
Quantas humilhações e experiências dolorosas não poderiam ser evitadas por muitos, se tão somente tivessem o temor do Senhor sendo submissos aos seus líderes? 
Mas, como o motivo da sua aflição, geralmente não lhes é declarado, eles continuam debaixo das correções de Deus, porque não associam que o motivo delas não raro se encontra associado às suas rebeliões, e não são curados, porque não se arrependem e não se consertam junto àqueles a cuja autoridade têm resistido. 
Eles não seguem o exemplo de Arão que ao ter ouvido a repreensão do Senhor, e visto o que sucedera a Miriã, se humilhou diante de Moisés, mostrando-se arrependido, e proferindo as seguintes palavras: 
“Ah, meu senhor! Rogo-te não ponhas sobre nós este pecado, porque procedemos loucamente, e pecamos. Não seja ela como um morto que, ao sair do ventre de sua mãe, tenha a sua carne já meio consumida.” 
O apóstolo Pedro tinha em mente o temor e submissão que é devido às autoridades, e da bênção que é ter um coração submisso, que nos preserve de ter uma língua desaforada e blasfema, pois disse o seguinte: 
“também sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar para o dia do juízo os injustos, que já estão sendo castigados; especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em imundas concupiscências, e desprezam toda autoridade. Atrevidos, arrogantes, não receiam blasfemar das dignidades, enquanto que os anjos, embora maiores em força e poder, não pronunciam contra eles juízo blasfemo diante do Senhor.” (II Pe 2. 9-11). 
Vivemos numa época em que muitos dentre as próprias autoridades não se dão ao respeito, mas nem com isso estamos autorizados a desrespeitar àqueles que foram constituídos pelo Senhor como autoridades sobre as nossas vidas, e faremos bem em nos guardar em nossa caminhada terrena, vivendo com santo temor e reverência, servindo ao nosso Deus, obedientemente, em todas as cousas que nos são ordenadas em Sua Palavra. 
Se Miriã foi castigada com lepra por falar contra aquele que era o Mediador da Antiga Aliança, de quanto maior castigo não é merecedor todo aquele que fala contra Cristo, o Mediador da Nova Aliança. 
Certamente era com isto em vista que o autor de Hebreus disse o seguinte: 
“Havendo alguém rejeitado a lei de Moisés, morre sem misericórdia, pela palavra de duas ou três testemunhas; de quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue do pacto, com que foi santificado, e ultrajar ao Espírito da graça? Pois conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu retribuirei. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo. Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo.” (Hb 10.28-31). 
A par de tudo o que se possa ver na Igreja visível de Cristo na terra, que nos leve a considerar apressada e erroneamente que debaixo da graça tudo nos é permitido, faríamos muito bem em atentar para as muitas advertências da Palavra de Deus, que nos alertam sobre o fato de que estar debaixo da graça não significa que estejamos livres da disciplina do Senhor, por um andar desordenado longe da Sua presença. 
Não podemos contar com o fato de usar a graça como pretexto para um comportamento insensato, para uma conversação não santa e caluniadora, pois temos visto no exemplo do que sucedeu a Arão e Miriã, que Deus não nos terá por inocentes, quando agirmos deliberadamente movidos por sentimentos de inveja, orgulho, rebelião, impureza, e seja qualquer outro que seja fruto da operação do pecado em nós. 
Bem faremos em confessarmos as nossas faltas e abandoná-las e voltarmos à prática de uma vida obediente e santa, para o nosso próprio bem e daqueles que estão debaixo do nosso cuidado. 
A iniquidade tem se multiplicado de tal forma no mundo, que pode parecer que o mal é algo banal e comum, e que está fora do alcance do controle e do juízo de Deus. 
Todavia, faremos bem em lembrar que ainda que os ímpios sejam entregues a si mesmos, para praticarem toda sorte de impurezas, para responderam por elas no Grande Dia do Juízo Final, no entanto, Deus corrigirá a seus filhos no aqui e agora, para que não sejam condenados à morte eterna, juntamente com as pessoas que amam o mundo de pecado. 
Assim, é nosso dever aumentar a vigilância e a santidade à vista de um aumento da iniquidade do mundo ao nosso redor. 
Devemos nos espelhar no exemplo de Noé, de Ló, de Raabe, de Obadias e de todos aqueles que serviram a Deus quando não tinham sequer ao seu lado, senão a uns poucos que não tinham sido vencidos inteiramente pelo mal. 
Lembremos finalmente que o pecado de rebelião, de dissensão entre o povo de Deus afasta do nosso meio a manifestação da glória de Deus, assim como a nuvem havia se afastado do tabernáculo por causa do pecado de Arão e Miriã, e não somente isto, o avanço do reino de Deus é detido por causa deste pecado, até que sejamos curados de nossas rebeliões, pois Israel não pôde prosseguir na jornada rumo a Canaã, até que Miriã fosse curada pelo Senhor, nos sete dias que Ele havia determinado para que ficasse leprosa fora do arraial. 
Em vez de aumentarem a esfera da sua influência e liderança, eles foram humilhados, pois todo o que se exaltar será humilhado. 
Em vez de ser engrandecida por Deus, Miriã foi envergonhada à vista de todos os israelitas, apesar dos muitos bons serviços que ela vinha prestando ao Senhor. 
Ele nunca fará vista grossa para as nossas faltas em face de uma fidelidade anterior. 
Ele recompensará a fidelidade e dará a justa retribuição ao mal que tivermos praticado, pois é imparcial em Seus juízos. 
Especialmente dos líderes exigirá muito mais, porque muito lhes é dado. 
Por isso a norma bíblica é que consideremos os outros superiores a nós mesmos, de modo que tenhamos sempre um espírito submisso que dê honra a todas as pessoas. 
Com isto não corremos o risco de julgarmos e falarmos contra qualquer liderança, que tenha sido levantada por Deus e que por falta de uma justa avaliação da nossa parte, possa ser alvo de nossas críticas, que acabarão por prejudicar a nós mesmos, pois ainda que eles não se defendam dos nossos ataques, Deus os defenderá. 
Assim, sempre será bom seguirmos a norma do apóstolo: 
“É pois para isso também que escrevi, para, por esta prova, saber se sois obedientes em tudo. E a quem perdoardes alguma coisa, também eu; pois, o que eu também perdoei, se é que alguma coisa tenho perdoado, por causa de vós o fiz na presença de Cristo, para que Satanás não leve vantagem sobre nós;” (II Cor 2.9,10).
Que sejamos pois muito criteriosos, até mesmo no próprio zelo pelas coisas do Senhor e em favor da manutenção da verdade em nosso meio, de modo que não venhamos a ser condenados naquilo que aprovamos, pois, podemos ser achados falando de autoridades constituídas por Deus, em razão de entendermos que estamos apenas combatendo o erro em favor da verdade. 
Para Arão e Miriã, Moisés havia errado em não ter se casado com uma israelita, e para eles isto o desqualificava de certa forma no serviço do Senhor, no entanto, não era este o juízo de Deus em relação a Moisés. 
Um espírito crítico, ácido, amargurado é um grande impedimento para um espírito de unidade e amor. 
Guardemo-nos, pois de toda crítica ácida contra quem quer que seja, porque no final o ácido acabará corroendo a nós mesmos, para o nosso próprio prejuízo e da unidade do povo de Deus. 
Por isso Miriã foi ferida com lepra para que ficasse fora do arraial, para servir de exemplo e figura desta verdade espiritual de que o espírito de rebelião impede a unidade do povo do Senhor numa vida espiritual saudável, que conte com a Sua bênção. 
Havia uma prática dos pais antigos para demonstrarem o seu desgosto com a desobediência de seus filhos, cuspindo-lhes na face. 
Isto indicava que o filho rebelde deveria se recolher em seu quarto por sete dias, assumindo a vergonha da sua rebelião e desobediência, e ficaria impedido de ver a face do seu pai por todo aquele período como prova do seu desgosto. 
Deus se valeu desta prática que havia entre eles para dizer que faria o mesmo com Miriã, em razão da rebelião dela contra Moisés, que na verdade era uma rebelião contra o Senhor ,por tê-lo escolhido para ser o líder do Seu povo. 
Assim como o filho que fora envergonhado deveria se submeter ao juízo que lhe foi imposto por seu pai, do mesmo modo Miriã teria que se submeter ao de Deus na vergonha que Ele lhe havia imposto. 
Nisto se aplicam as palavras do autor de Hebreus: 
“É para disciplina que sofreis; Deus vos trata como a filhos; pois qual é o filho a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos se têm tornado participantes, sois então bastardos, e não filhos. Além disto, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e os olhávamos com respeito; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, e viveremos? Pois aqueles por pouco tempo nos corrigiam como bem lhes parecia, mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. Na verdade, nenhuma correção parece no momento ser motivo de gozo, porém de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos que por ele têm sido exercitados.” (Hb 12.7-11). 
Sujeitar-se à disciplina de Deus é a chave de toda esta porção das Escrituras. O autor de Hebreus faz uma afirmação sob a forma de indagação: 
“não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, e viveremos?” 



“1 Ora, falaram Miriã e Arão contra Moisés, por causa da mulher cuchita que este tomara; porquanto tinha tomado uma mulher cuchita.
2 E disseram: Porventura falou o Senhor somente por Moisés? Não falou também por nós? E o Senhor o ouviu.
3 Ora, Moisés era homem mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra.
4 E logo o Senhor disse a Moisés, a Arão e a Miriã: Saí vos três à tenda da revelação. E saíram eles três.
5 Então o Senhor desceu em uma coluna de nuvem, e se pôs à porta da tenda; depois chamou a Arão e a Miriã, e os dois acudiram.
6 Então disse: Ouvi agora as minhas palavras: se entre vós houver profeta, eu, o Senhor, a ele me farei conhecer em visão, em sonhos falarei com ele.
7 Mas não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa;
8 boca a boca falo com ele, claramente e não em enigmas; pois ele contempla a forma do Senhor. Por que, pois, não temestes falar contra o meu servo, contra Moisés?
9 Assim se acendeu a ira do Senhor contra eles; e ele se retirou;
10 também a nuvem se retirou de sobre a tenda; e eis que Miriã se tornara leprosa, branca como a neve; e olhou Arão para Miriã e eis que estava leprosa.
11 Pelo que Arão disse a Moisés: Ah, meu senhor! rogo-te não ponhas sobre nós este pecado, porque procedemos loucamente, e pecamos.
12 Não seja ela como um morto que, ao sair do ventre de sua mãe, tenha a sua carne já meio consumida.
13 Clamou, pois, Moisés ao Senhor, dizendo: Ó Deus, rogo-te que a cures.
14 Respondeu o Senhor a Moisés: Se seu pai lhe tivesse cuspido na cara não seria envergonhada por sete dias? Esteja fechada por sete dias fora do arraial, e depois se recolherá outra vez.
15 Assim Miriã esteve fechada fora do arraial por sete dias; e o povo não partiu, enquanto Miriã não se recolheu de novo.
16 Mas depois o povo partiu de Hazerote, e acampou-se no deserto de Parã..” (Nm 12.1-16).


Silvio Dutra

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