terça-feira, 27 de agosto de 2013

Os Discípulos e os Frutos da Palavra de Deus


Lucas 8:4-15: “Reunindo-se uma grande multidão e vindo a Jesus gente de várias cidades, ele contou esta parábola: 'O semeador saiu a semear. Enquanto lançava a semente, parte dela caiu à beira do caminho; foi pisada, e as aves do céu a comeram. Parte dela caiu sobre pedras e, quando germinou, as plantas secaram, porque não havia umidade. Outra parte caiu entre espinhos, que cresceram com ela e sufocaram as plantas. Outra ainda caiu em boa terra. Cresceu e deu boa colheita, a cem por um'. Tendo dito isso, exclamou: 'Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!' Seus discípulos perguntaram-lhe o que significava aquela parábola. Ele disse: 'A vocês foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino de Deus, mas aos outros falo por parábolas, para que ‘vendo, não vejam; e ouvindo, não entendam’. 'Este é o significado da parábola: A semente é a palavra de Deus. As que caíram à beira do caminho são os que ouvem, e então vem o diabo e tira a palavra dos seus corações, para que não creiam e não sejam salvos. As que caíram sobre as pedras são os que recebem a palavra com alegria quando a ouvem, mas não têm raiz. Creem durante algum tempo, mas desistem na hora da provação. As que caíram entre espinhos são os que ouvem, mas, ao seguirem seu caminho, são sufocados pelas preocupações, pelas riquezas e pelos prazeres desta vida, e não amadurecem. Mas as que caíram em boa terra são os que, com coração bom e generoso, ouvem a palavra, a retêm e dão fruto, com perseverança'”.

SEÇÃO I. A NATUREZA DA PALAVRA FALADA AQUI.

1. Este Evangelho trata dos discípulos e dos frutos que a Palavra de Deus desenvolve no mundo. Ele não fala da lei nem das instituições humanas, mas, como o próprio Cristo diz da Palavra de Deus, que ele próprio prega como semeador, pois a lei não dá fruto, tampouco as instituições dos homens. Porém Cristo estabelece aqui quatro tipos de discípulos da Palavra divina.

SEÇÃO II. OS DISCÍPULOS DESTA PALAVRA.

2. A primeira classe de discípulos são aqueles que ouvem a Palavra, mas não entendem nem a estimam. E estas não são as pessoas médias do mundo, mas as maiores, mais sábias e mais santas. Em resumo, eles são a maior parte da humanidade, pois Cristo não fala aqui daqueles que perseguem a Palavra, nem daqueles que não conseguem dar seus ouvidos a ela, mas de quem a ouve e é estudante da mesma, dos que também desejam ser chamados verdadeiros cristãos e viver em comunhão cristã com cristãos, e que são participantes do batismo e da Ceia do Senhor. Mas eles têm um coração carnal, e permanecem assim, não se apropriam da Palavra de Deus para si, que entra por um ouvido e sai pelo outro. Dessa forma, a semente ao longo do caminho não vai cair na terra, mas permanece repousada no chão pelo caminho, porque este é duro, vagueado pelos pés de homens e pelas patas de animais, e ela não poderia ter raiz.

3. Portanto, Cristo diz que vem o diabo e tira a palavra do seu coração, para que eles não possam acreditar e ser salvos. O poder de Satanás nisso só revela que os corações endurecidos, através de uma mente e vida mundana, perdem a Palavra e deixam-na ir, de modo que eles nunca entendem ou o confessam; ao invés da Palavra de Deus, Satanás envia falsos mestres para a percorrerem através das doutrinas dos homens. Pois está escrito aqui: tanto que foi pisada, e as aves do céu a comeram. O próprio Cristo interpreta os pássaros como os mensageiros do diabo, que arrebatam a Palavra e a devoram, o que é feito quando ele se vira e cega seus corações para que eles não entendam nem a estimem, tal como diz São Paulo em 2 Tm 4:4: "Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos". Quanto a ser pisado sob os pés dos homens, Cristo se refere aos ensinamentos dos homens, àquela regra em nossos corações, como ele também diz em Mateus 5:13: o sal que perdeu o sabor é lançado para fora e pisado pelos homens; isto é, como diz São Paulo em 2 Ts 2:11, eles devem acreditar em uma mentira porque não foram obedientes à verdade.

4. Assim, todos os hereges, fanáticos e as seitas pertencem a essa categoria, que entendem o Evangelho de uma forma carnal e explicam-no como querem, de acordo com suas próprias ideias: eles ouvem o Evangelho e ainda assim não produzem frutos – sim, ademais, eles são regidos por Satanás e ainda mais duramente oprimidos pelas instituições humanas do que o eram antes de ouvirem a Palavra. É, portanto, uma expressão terrível que Cristo dá aqui: que o diabo tira a palavra de seus corações, pelo que ele mostra claramente que este reina poderosamente em seus corações, apesar de serem chamados de cristãos e de ouvirem a Palavra. Da mesma forma que soa terrivelmente que eles estão para serem pisados e deverão estar sujeitos aos homens e aos seus ensinamentos ruinosos, pelo que, sob a aparência e o nome do Evangelho, o diabo lhes toma a palavra, para que nunca possam acreditar e ser salvos, mas devam estar perdidos para sempre, como os espíritos fanáticos do nosso dia fazem em todas as terras. Para eles, esta Palavra não é dada, não há salvação, e as grandes obras ou vidas santas não adiantaram de nada, pois desta forma ele diz: "Para que não sejam salvos"; uma vez não tendo a Palavra, ele mostra de forma suficiente que não são as obras deles, mas a somente a fé na sua Palavra é que salva, como diz Paulo aos Romanos: "O poder de Deus para salvação de todo aquele que crê" (Rm 1:16).

5. A segunda classe de ouvintes são os que recebem a palavra com alegria, mas não perseveram. Estes são também uma grande multidão que entende a Palavra corretamente e se apoderam dela em sua pureza, sem qualquer espírito sectário, de divisão ou de fanatismo; eles também se alegram no que sabem acerca da verdade e são capazes de saber como podem ser salvos, sem as obras, através da fé. Eles também sabem que estão livres da escravidão da lei, de sua consciência e de ensinamentos humanos, mas quando se trata do teste de sofrerem dano, desgraça e perda de vida ou de propriedade, então eles caem e o negam, pois não têm raiz suficiente, e não são plantados a profundidade suficiente no solo. Eles, portanto, são como os que crescem sobre uma rocha, brotando frescos e verdejantes, cuja contemplação é um prazer e despertam brilhantes esperanças, mas quando o sol brilha quente eles murcham, por não terem solo e umidade, e lá somente a rocha permanece. Assim eles agem, em tempos de perseguição: eles negam ou mantêm silêncio sobre o Verbo, e lidam, falam e sofrem tudo o que seus perseguidores mencionam ou desejam o que anteriormente saía e era falado e confessou, com um espírito fresco e alegre, enquanto ainda havia paz e não o calor, de modo a haver esperança de que dessem muito fruto e servissem às pessoas. Esses frutos, por sua vez, não são apenas as obras, senão predominantemente a confissão, a pregação e a divulgação da Palavra, de modo que muitos outros possam, assim, ser convertidos e no reino de Deus ser desenvolvidos.

6. A terceira classe são aqueles que ouvem e entendem a Palavra, mas ainda caem do outro lado da estrada entre os prazeres e dos cuidados da vida, e, por consequência, eles também nada fazem com a Palavra. E há praticamente uma grande multidão destes, pois, apesar de não darem início às heresias, como a primeira classe, mas sempre possuírem a Palavra absolutamente pura, eles também são atacados: não à esquerda como os outros, com oposição e perseguição, mas sim caem pelo lado direito, e é sua ruína apreciar a paz e os bons tempos. Portanto, eles não se entregam sinceramente à Palavra, mas tornam-se indiferentes e afundam nos cuidados, riquezas e deleites da vida, de modo que eles não trazem benefícios a qualquer pessoa. Por isso, eles são como a semente que caiu entre os espinhos. Embora esse solo não seja rochoso, mas bom, não deixado de lado, mas arado profundamente, ainda assim os espinhos não vão deixá-la brotar: eles a sufocam. Assim, estes têm tudo na Palavra que seja necessário para a sua salvação, mas eles não fazem qualquer uso dela, e por conta disso apodrecem nesta vida em meio aos prazeres carnais. Estes pertencem àquele grupo que ouve a Palavra, mas não traz a sua carne em sujeição. Eles sabem o seu dever, mas não o fazem; eles ensinam, mas não praticam o que ensinam, e passam este ano como se fosse o último.

7. A quarta classe são aqueles que tomam posse e guardam a Palavra em um coração bom e honesto, e dão fruto com paciência; são aqueles que ouvem a Palavra e a retêm com firmeza, meditam nela e agem em harmonia com ela. O diabo não irá arrebatá-la para longe, nem são assim desviados; além disso, o calor da perseguição não irá roubá-la deles, e tanto os espinhos do prazer quanto a avareza em meio às circunstâncias não impedem o seu crescimento, mas eles dão fruto pelo ensino de outros e através do desenvolvimento do reino de Deus; eles, portanto, também fazem o bem ao próximo em amor, e, dessa forma, Cristo acrescenta: "eles dão fruto com perseverança." Estes devem sofrer muito por conta da Palavra, da vergonha e da desgraça trazida por fanáticos e hereges, ódio e inveja com lesão corporal e em suas propriedades através de seus perseguidores, para não mencionar os espinhos e as tentações de sua própria carne, de modo que ela pode muito bem ser chamada de a “Palavra da cruz”, pois aquele que queira mantê-la deve carregar a cruz e o infortúnio, mas também o triunfo e a fidelidade.

8. Ele diz: "Nos corações bons e generosos." Como um campo que está sem um espinho ou arbusto, limpo e espaçoso, como um belo lugar limpo: assim também é com um coração, reluzente e limpo, amplo e espaçoso, isto é, sem cuidados e sem avareza quanto às necessidades temporais, para que a Palavra de Deus verdadeiramente encontre guarida lá. Mas o campo é bom, não só quando ele está arado e nivelado, mas quando ele também possui solo rico e fértil e é produtivo, não como um campo de pedra e cascalho. Só assim o coração que tem um bom solo e cheio de espírito é forte, fértil e bom para manter a Palavra, e dá fruto com perseverança.

9. Aqui vemos porque não é à toa que há tão poucos verdadeiros cristãos, uma vez que nem toda a semente cai em boa terra, mas apenas um quarto e uma pequena parte, e que não são de confiança aqueles que se gabam de serem cristãos e louvam o ensinamento do Evangelho, como Demas, um discípulo de São Paulo, que por fim o abandonou (2 Tm 4:10), ou como os discípulos de Jesus, que viraram as costas para ele (João 6:66). O próprio Cristo exclama aqui: "Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça", como se dissesse: “Ah! Quão poucos cristãos verdadeiros existem! Não se atrevam a acreditar que todos os chamados cristãos, ouvintes do Evangelho, sejam cristãos: é necessário muito mais do que isso!”.

10. Tudo isso é falado para nossa instrução, para que possamos não errar, uma vez que muitos fazem mau uso do Evangelho e alguns o apreendem corretamente. A verdade é desagradável ao ser pregada àqueles que tratam o Evangelho de maneira tão vergonhosa e até mesmo se opõem a ela. A pregação é tornar-se tão universal que o Evangelho deva ser proclamado a todas as criaturas, como Cristo diz em Mc 16:15: "Pregai o Evangelho a toda criatura", e Sl. 19:4: "A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo." Que tenho eu contra isso para não estimá-lo demais? Deve ser porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos. Por causa da boa terra que produz frutos com paciência, a semente também deve cair infrutífera pelo caminho, sobre a rocha e entre os espinhos, na medida em que temos a certeza de que a Palavra de Deus não irá adiante sem levar alguns frutos, mas sempre encontra também boa terra. Como Cristo diz aqui, algumas sementes do semeador também caíram em boa terra, e não só pelo caminho, entre os espinhos e em solo pedregoso. Por onde quer que o Evangelho vá você vai encontrar cristãos. “Minha palavra não voltará para mim vazia” (Is 55:11).

SEÇÃO IV. POR ISSO QUE CRISTO CHAMA A DOUTRINA SOBRE OS DISCÍPULOS E OS FRUTOS DA PALAVRA DE “MISTÉRIO”.

19. Mas que isso quer dizer quando ele afirma: "A vós é dado conhecer os mistérios do reino de Deus" etc.? Quais são os mistérios? Se não se deve conhecê-los, por que então eles são pregados? Um “mistério” é um segredo escondido, que não é conhecido; os "mistérios do reino de Deus" são as coisas do reino de Deus, como, por exemplo, Cristo com toda a sua graça manifesta a nós, como Paulo a descreve, pois quem conhece a Cristo corretamente entende o que significa o reino de Deus, bem como o que nele está contido. E isso é chamado de mistério, porque é espiritual e secreto, e de fato continua a ser assim, para quem o espírito não a revelar. Pois, embora haja muitos que o veem e o ouvem, mas não o entendem, assim é com muitos que pregam e ouvem a Cristo, tal como ele se ofereceu a si mesmo por nós, mas tudo o que sabem está apenas sobre a sua língua e não em seu coração: eles mesmos não acreditam, nem experimentam, como Paulo em 1 Co 2:14 diz: “O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus!” Cristo, por sua vez, diz aqui: “A vós é dado”, o Espírito lhe concede não apenas ouvir e ver, mas reconhecer e acreditar com o coração. Isso, portanto, já não é um mistério para você, mas para outros que ouvem, assim como você, mas não têm fé em seu coração, eles veem e não entendem: para eles isso é um mistério e que lhes continuará desconhecido, e tudo o que escutam é apenas como um ouvir uma parábola ou um provérbio obscuro. Isto também é comprovado pelos fanáticos dos nossos dias: sabem tanto de pregar a respeito de Cristo, mas, como eles mesmos não o experimentam em seu coração, eles avançam e passar pelo verdadeiro fundamento do mistério, vagando por aí com perguntas e descobertas raras; quando se trata de uma prova, eles não sabem a menor parcela sobre a confiança em Deus e encontrar em Cristo o perdão dos seus pecados.

20. Mas Marcos diz (4:33) que Cristo falou assim ao povo com parábolas, para que pudessem compreender cada um segundo a sua capacidade. Como é que isso harmoniza com o que diz Mateus, 13:13-14: Ele assim lhes falou em parábolas, pelo fato de eles não entenderem? Certamente Marcos quis dizer que as parábolas servem para arrebatar uma massa de pessoas difíceis e grosseiras, ainda que elas não as entendam imediatamente de fato, mais tarde podem ser ensinadas e, em seguida, elas a entendam; parábolas são naturalmente agradáveis para as pessoas comuns, e eles facilmente recordam delas, uma vez que são tomadas a partir de assuntos comuns do dia a dia, no cotidiano em que as pessoas vivem. Mas Mateus quer dizer que estas parábolas são de natureza tal que ninguém possa compreendê-las: eles podem agarrá-las e ouvi-las quantas vezes quiserem, mas o Espírito pode torná-las conhecidas e revelá-las. Não que eles deveriam pregar aquilo que não podem entender, mas segue-se naturalmente que, uma vez não revelado pelo Espírito, isso ninguém entende. Cristo, no entanto, tomou estas palavras de Is. 6:9-10, onde o alto significado da presciência divina é mencionado: Deus esconde e revela a quem ele quiser; a quem ele tinha em mente desde a eternidade.


Autor: Martinho Lutero

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