terça-feira, 9 de setembro de 2014

Efeito Lucy

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Efeito Lucy

Se você não ficou vivendo em uma caverna nos últimos 20 anos, muito provavelmente já sabe que esse argumento utilizado no filme Lucy, que estreou nos cinemas na semana passada, de que usamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral é balela.

Lucy – o filme

No entanto Luc Besson, em seu estilo de direção histriônico usa como principal pilar de seu esburacado enredo essa argumentação requentada e extraída de uma antiga lenda urbana.
Apesar do pacto ficcional não ser nada convincente, as interpretações de Scarlett Johansson  e Morgan Freeman o são.
Daí o filme conseguir decolar, mesmo derrapando, por vezes, na difícil conciliação entre a velocidade e a violência dos filmes de ação com a fantasia e a contemplação estética das histórias em quadrinhos.
A protagonista Lucy vivida por Scarlett Johansson transforma-se numa ultra-hiper-super-heroína que é gestada pela violência do mundo do crime e vivencia peripécias de tirar o fôlego.
O que falta em verossimilhança no enredo sobra em cenas de ação no roteiro — numa escalada alucinante, imprevisível e até absurda.
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Tudo eficientemente costurado por tecnobaboseiras pseudocientíficas que, por meio de uma direção atenta, não tiram da narrativa sua velocidade ou sua beleza plástica.
O resultado, obviamente, é um mosaico caótico e surpreendente que tangencia o trash e o cult e como de praxe abre possibilidades para continuações — muito a gosto das grandes produções de Hollywood.
Em síntese, o filme é como um bom suflê: pouco nutritivo, quase sem consistência — porém — delicioso para quem, como eu, gosta desse tipo de cardápio.

Lucy – A primeira mulher

Particularmente, entre as coisas que mais gostei no filme, destaco aqui em primeiro lugar a homenagem feita à arqueologia.
O uso do nome Lucy é intencional e se reporta ao fóssil de uma fêmea do Australopithecus afarensis de cerca de 3,2 milhões de anos, descoberto na Etiópia na década 1970  pelo antropólogo americano Donald Johanson e seu colaborador, o estudante Tom Gray.
Na ocasião batizaram o referido hominídeo com o nome “Lucy” em referência à canção “Lucy in the Sky with Diamonds” sucesso da época e de autoria dos Beatles.
Benson usa a brincadeira dos Beatles com a sigla LSD ( Lucy, Sky, Diamonds) um dos inúmeros easter eggs do filme, para contrapor o ácido lisérgico a uma droga sintética usada como argumento principal da trama. Além disso, ele faz uma metáfora entre a protagonista de seu filme e a primeira das mulheres a dar o mais significativo passo evolutivo.
Lucy - esqueleto e reconstituição
Lucy – esqueleto e reconstituição
O destaque se dá pelo fato de que a primata Lucy (presente nas primeiras cenas do filme usando as mãos em concha para beber água), além de ser por muito tempo considerada o hominídeo mais antigo até então descoberto se tornou célebre por apresentar estrutura esquelética adaptada ao andar ereto — deixando as mãos livres para fabricar e usar utensílios – um marco na linha evolutiva humana.
Consequentemente, com a descoberta posterior de outros fósseis mais antigos — como o do Ardipithecus ramidus descoberto em 1982 — Lucy perdeu o título de hominídeo mais antigo e não pode ser considerada a “primeira mulher” como insinuado no filme de Benson (mais um furo em sua peneira narrativa).

Cérebro subutilizado

Outro aspecto do filme que me chamou a atenção foi esse contraponto da mitologia urbana dos 10% da capacidade cerebral com a realidade das pesquisas em neurociência – principalmente a neurofisiologia.
Muitos dos meus alunos assistiram ao filme e tiveram sua curiosidade atiçada para esse aspecto do funcionamento de seu próprio cérebro.
Em minha opinião, é exatamente aí que reside o principalíssimo papel da ficção científica — proporcionar saudáveis discussões sobre o que existe de realidade na ficção e vice-versa.
E esse tema — neurofisiologia — principalmente a fisiologia da cognição é um dos mais palpitantes e desafiadores.
Assim me restrinjo apenas a apresentar, aqui, algumas evidências científicas que refutam a tese principal do filme que afirma que só se utiliza um décimo da capacidade do cérebro, de modo que grande parte dele fica inativa ou subutilizada.
Segundo o apresentado no enredo, se todo o cérebro fosse utilizado, o indivíduo desfrutaria de habilidades sobre-humanas, argumentando que a porção inativa do cérebro abrigaria habilidades cognitivas superiores — além de funções psicocinéticas— e todo um arsenal de percepções extra-sensoriais e outros dotes psíquicos extraordinários.
Insinuando também que algumas pessoas superdotadas intelectualmente usariam mais do que 10% do cérebro — como o atribuído a gênios da envergadura de Albert Einstein e Margaret Mead.
Sabemos que a capacidade intelectual de um indivíduo pode ser aumentada ao longo do tempo, no entanto essa crença de que grande parte do cérebro não é utilizada e, que o ser humano médio só faz uso de até 10% de seu potencial efetivo não tem nenhuma base científica.
De acordo com as pesquisas do neurologista Barry Gordon “o ser humano usa cada parte do cérebro” e o PhD em psicologia Barry Beyerstein estabelece um conjunto de evidências que corroboram essa constatação.
Aqui apresento algumas:
1. As avaliações das sequelas em acidentados atestam que perdas de massa cerebral por menores que sejam afetam significativamente toda a fisiologia do sistema nervoso produzindo na maioria das vezes efeitos devastadores e permanentes.
2. O cérebro consome 20% do oxigênio inalado e corresponde em massa a apenas 2% do corpo de um adulto. Ora se 90% do cérebro fosse desnecessário para as funções de um ser humano normal haveria grande vantagem evolutiva em seres humanos com cérebros menores e mais eficientes. Por exemplo, o parto de uma criança com um crânio 90% menor apresentaria um risco de insucesso significativamente menor, logo prevaleceria como consequência da seleção natural.
3. Exames de ressonância magnética e tomografia por emissão de pósitrons (PET) revelam que, mesmo durante o sono ou o coma mais profundo, todas as partes do cérebro mostram-se em atividade, mesmo àquelas destinadas à motricidade.
4. O cérebro apresenta áreas distintas e especializadas para diferentes tipos de processamento de informação. Décadas de pesquisas têm desvendado esse mapa de funções cerebrais e até agora não foram encontradas nenhuma área, em nenhum momento da história individual, cuja atividade cerebral pudesse ser negligenciada.
5. Pela avaliação de danos cerebrais promovidos pelo uso de drogas recreativas e também por sequelas produzidas por doenças incapacitantes constatou-se que toda a célula nervosa do organismo que não é utilizada se degenera e é descartada naturalmente. Por isso, se 90% do cérebro fosse inativo, ou subutilizado, autópsias de cérebros adultos revelariam degeneração correspondente ou pelo menos equivalente à essa subutilização. Coisa que nunca foi observada.
Que pena!
A ciência parece querer frear a nossa imaginação e também estragar os negócios milionários de muitos “especialistas” que criam manuais e técnicas para ativar os outros 90%.
No entanto eu quero olhar esse assunto com bons olhos.
Talvez essa mitologia queira explicar o porquê do comportamento tão pouco inteligente da humanidade ao longo de sua história: guerras, ambição desenfreada, violência doméstica, drogas, preconceito, poluição, etc. — não é coisa de gente inteligente. Ou é?
Quem sabe com o desmentido, uma outra mitologia mais plausível tenha que surgir rapidamente para preencher essa lacuna e saciar nossa sede de explicação.
Eu serei o primeiro à lança-la.
O ser humano tem usado plenamente o seu cérebro. Isso é fato.
O que está sendo pouco utilizado — em verdade — é o seu coração.
Cada indivíduo tem usado apenas 25% de sua capacidade de amar.
Amando a si mesmo e ao dinheiro acima de todas as coisas.

http://hypescience.com/

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