segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dignidade Cristã


A palavra “dignidade” significa o valor do que não tem preço (incalculável), nem mesmo valor qualificável. Por não ter preço, a dignidade não é objeto de comércio nem do desejo, mas de respeito. O que tem um preço pode muito bem ser substituído por alguma outra coisa a titulo de equivalente.
1. Os comportamentos que não são dignos para um cristão
Jesus exorta aos cristãos sobre o complexo farisaico através destas palavras: “Tomai cuidado com os escribas! Eles gostam de andar com roupas vistosas, de ser cumprimentados nas praças públicas; gostam das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos melhores lugares nos banquetes. Eles devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso, eles receberão a pior condenação” (Mc 12,38-40).
Através dessa exortação Jesus enumera alguns comportamentos que não são dignos para um cristão:
1). Ser ambicioso desenfreado: ”gostam das primeiras cadeiras e dos melhores lugares nos banquetes”. Um ambicioso só obedece ao seu instinto de mandar e receber honrarias. Para ele os outros não são pessoas que mereçam respeito, mas coisas que se utilizam para a própria afirmação. Um ambicioso só quer o primeiro lugar em tudo. Sabemos que quem desejar ser a todo custo o primeiro, dificilmente se preocupará com ser justo e honesto. Para um ambicioso os outros são degraus para atingir seu poder.
2). Ser avarento: “Eles devoram as casas das viúvas”. A avareza é um desvio do significado de infinito, uma transposição do absoluto para o que é relativo. Um avarento não percebe que os bens são apenas um meio para se viver e não a própria razão de ser da vida. Na verdade, um avarento é a vítima de um prazer em possuir as coisas, mas que elas jamais vão satisfazer completamente sua vida, porque podemos alcançar todos os itens de nossa lista de desejo, e ainda assim nos sentimos vazios, pois no fundo não estamos sedentos de fama, de propriedades ou de poder, mas do significado da vida, ou de aprendermos a viver de tal forma que nossa existência tenha importância, capaz de modificar o mundo ao menos um pouquinho, pela nossa passagem por ele. Os escribas têm sua cobiça disfarçada de serviço para explorar os necessitados. São verdadeiramente avaros. E o avaro é o protótipo dos sem-coração.
3). Uma espiritualidade sem vida: “Fingir fazer longas orações”. Entrar na presença de Deus é torná-Lo a única coisa mais importante. Se Deus se tornar o centro único de nossa vida, alcançaremos uma satisfação diferente e superior a qualquer outro prazer. A espiritualidade torna-se, então uma fonte de vida e de alegria. Por esta razão, as pessoas que dizem crer em Deus, mas vivem tristes, fingidas, cansadas, e debilitadas por dentro, devem perguntar-se o que falta em sua relação com Deus. Este tipo de situação pode ser uma manifestação de uma relação intelectual demais no sentido de um conjunto de idéias e doutrinas, saber das coisas de Deus, mas não está com Deus. Pode ser uma manifestação de um ato repetitivo sem reflexão e sem questionamento. A oração se transforma, assim, em um ato de falar consigo mesmo e não falar com Deus. O falar consigo mesmo e não com Deus acontece porque Deus não ocupa o centro da vida nem sequer uma presença que nos anima e nos dá certeza. Deus se torna uma decoração no nosso solilóquio. Trata-se de uma espiritualidade sem vida. O exemplo disso tudo são os escribas, pois eles se preocupam com o exteriorismo social e religioso e vivem uma religião exibicionista.
2. O que é digno para um cristão?
Ao lado dos escribas Jesus coloca a atitude de generosidade e de desapego de uma viúva pobre, humilde e anônima que o evangelho nos apresenta. Através da generosidade da viúva , Jesus quer nos dizer que crer em Deus é uma atitude interna do coração que se manifesta no desapego e na generosidade, doação, imitando-se, assim, a generosidade de Deus que criou tudo por amor gratuitamente. Se percebermos e apreciarmos verdadeiramente que o esplendor daquilo que temos e daquilo que possuímos vem de Deus, o Doador de todos os bens, conseqüentemente não nos agarraremos aos nossos bens nem os utilizaremos para nos tornar soberbos, apoiando-nos em falsas seguranças, mas procuraremos ser cada vez mais generosos e livres, quer dando, quer recebendo. A generosidade é um sinal de gratidão pelos benefícios recebidos de Deus e, ao mesmo tempo, manifesta a liberdade interior. O generoso não só dá as coisas para os necessitados, mas dá-se a si próprio por amor de Deus e do próximo, graças à sua liberdade interior. Por isso, a generosidade que se concretiza na partilha e na solidariedade não empobrece, mas é geradora de vida e de vida em abundância. Quando repartirmos com generosidade e amor aquilo que Deus colocou à nossa disposição, não ficaremos pobres, mas os bens repartidos tornam-se fonte de vida e de bênção para nós e para todos aqueles que deles beneficiam. O generoso é livre interiormente porque ele não procura o seu próprio proveito, mas o daquele(s) a quem favorece. A alegria que brota da generosidade de um doador nobre é um dos mais preciosos e permanentes tesouros. A verdadeira generosidade é silenciosa, despercebida diante dos olhos dos homens, mas gritante diante de Deus a exemplo da viúva que depositou tudo que tinha silenciosamente, mas somente Deus em Jesus Cristo percebeu esse ato.
O evangelho nos relata que a viúva depositava apenas duas moedas, mas foi elogiada por Jesus pela sua generosidade. A viúva dá uma quantidade pequena, mas com um valor maior de qualquer donativo grandioso, porque ela dá tudo o que tem. Isto quer nos dizer que através de coisas pequenas podemos fazer de nossa vida uma entrega a Deus e ao próximo. Além disso, o que dá peso para o que damos, não é sua quantidade, mas o amor e a disponibilidade depositados naquilo que damos. Para Deus os bens dados aos necessitados não têm valor em si mesmos, mas somente quando eles são expressão de um coração que ama, quando o que se partilha é a vida. Deus não valoriza a quantidade, mas a vontade e o amor. Somente assim o que damos ganha um peso diante de Deus.
O evangelho também nos diz que a viúva deu tudo que tinha, fruto de seu trabalho. Se ela dá tudo o que lhe falta, isto significa que ela dá a própria vida. Ninguém dá tanto do que aquele que não reserva nada para si. O verdadeiro sacrifício consiste não em dar o que temos, mas em dar nossa própria vida. A viúva faz esta escolha porque o confiar em Deus e o amar aos irmãos são muito mais importantes do que todas as questões de dinheiro. Neste sentido crer em Deus significa acreditar na providência divina, mas sem dispensar a colaboração humana. Confiar significa compartilhar. Quem confia, partilha, dá o que tem e dá-se a si mesmo. Dentro desta noção todos os gestos exteriores que manifestam a vaidade e exibicionismo ficam inválidos diante de Deus.
Deus não valoriza os gestos espetaculares que não saem do coração. O que Deus pede é que sejamos capazes de Lhe oferecer tudo, que aceitemos despojar-nos das nossas certezas, das nossas manifestações de orgulho e de vaidade, dos nossos interesses pessoais a fim de nos entregarmos incondicionalmente nas mãos de Deus. O verdadeiro cristão é aquele que no silêncio e na simplicidade dos gestos cotidianos, aceita sair do seu egoísmo e da sua auto-suficiência e colocar a totalidade da sua existência nas mãos de Deus. Deus chega até nós na humildade, na simplicidade, na debilidade, nos gestos silenciosos e simples de alguém em quem nem reparamos. (Pe Silvester Anas)

Um comentário:

  1. parabéns pelo blog, está maravilhoso e cheio de conhecimento, que Deus te abençoe
    abraços ^^

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