sábado, 9 de maio de 2015

Maldita Maldição Hereditária

Essa história a vivi quando ainda era menino na fé e adolescente na idade. Aceitei o convite para participar de um congresso de jovens, creio que na simpática cidade de Rubiataba, interior goiano. Aqueles eram os dias da popularização do movimento de Guerra Espiritual, importado dos EUA, uma mistura de Pentecostalismo com Zoroastrismo que ainda faz muito sucesso no meio evangélico.

O movimento é uma espécie de teoria da conspiração aonde de um lado, feiticeiros e demônios lutam contra os crentes e os anjos do outro pelo controle do mundo. Não quero entrar em mais detalhes sobre o movimento em si. No entanto eu me lembro que na primeira noite um cara do altar causou todo um alvoroço emocional (unção) fazendo a todos se debruçarem em prantos orando e pedindo perdão à Deus pela escravidão e o maltrato sofridos pelos índios e negros no Brasil. 

O argumento era que o perdão concedido por Deus liberaria o ambiente espiritual local e avivaria o Brasil. Avivamento significaria não um arrependimento da nação, mas uma reação em cadeia que tornaria todas igrejas tradicionais em centros de curas e milagres de cunho pentecostal. No meio evangélico a novidade se torna revelação e é recebida com euforia, da mesma forma que qualquer tentativa bereiana de verificar a novidade através da luz da Bíblia é interpretada como incredulidade e até mesmo rebeldia, e naquela noite não foi diferente, todo mundo entrou na dança, ficava feio diante dos olhos da liderança não gritar e chorar conforme a melodia tocava. 

Havia, porém, um problema, eu nunca maltratei índio e muito menos possuí escravo, eu era jovem e ignorante, demorou algum tempo para que eu entendesse que se algum obscuro antepassado meu cometeu abusos contra índios e escravos, a culpa foi dele e não minha. Será que havíamos nos tornados Mórmons, pedindo perdão por, e possivelmente também batizando nossos antepassados mortos? 

Esse é um problema sério no meio evangélico, os líderes com um alguma cultura geralmente são de esquerda, e dessa mistura zoroastrica-marxista veio essa ideia ridícula de fazer justiça social espiritual, de purgar os improváveis crimes de antepassados anonimados pela história, a quebra de maldição naquela noite estava a serviço de Marx, livrando os crentes de supostos “demônios de estimação” que os perseguiam por causa da luta de classes de outrora. Nada poderia estar tão longe do evangelho e mais próximo da macumba. Terminado o congresso a novidade se espalhou entre as igrejas levadas pelos que assistiram ao evento. A maioria dos pastores julgam se o novo “mover” é bom ou não pelo resultado prático no aumento na "frequência e entradas" e nesse sentido a quebra de maldições, como atração, nunca falha.
Nada é melhor para atrair pessoas e causar euforia que o misticismo coletivo. A experiência de orar, de cantar, em grupos de 300, 500 e 1000 pessoas é algo que só a igreja pode trazer, a experiência é emocional, dramática, profundamente relaxante e ao mesmo tempo animadora. Não há nada como começar a semana depois de um culto pentecostal no domingo à noite, é revigorante, mas antes de tudo é uma experiência emocional.  Essa força do pentecostalismo como experiência é positiva quando acompanhada de ensinos bíblicos genuínos. 

Foi através de fenômenos semelhantes que a quebra de maldição se popularizou. Não é raro que doutrinas estranhas provenha de erros de interpretação, e com a quebra de maldição não foi diferente. Os criadores da teoria conseguiram ligar as consequências de atitudes sociais com uma culpa hereditária. Dando a mesma resposta à pergunta: "Porque coisas ruins acontecem com pessoas boas?" A resposta segundo o movimento da Guerra Espiritual é sempre a mesma, "maldição hereditária. Coisas ruins acontecem a todos, aos bons, aos maus e aos inocentes, basta se estar vivo para correr o risco de morrer. Porém gente imatura sempre busca explicações idiotas para perguntas sem resposta. E a resposta, segundo os teóricos da maldição hereditária, está em Êxodo 20:6b “Sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” Esse mesmo texto que é repetido com pequenas variações por cerca de 5 vezes no Antigo testamento. Para uma perfeita exegese é necessário entender que a cultura Judaica, e consequentemente, do escritor não é dualista em sua visão da vida, de Deus e da existência, para o Judeu comum Deus não luta contra o diabo, mas é seu Senhor. Portanto tudo que acontece de bom ou de ruim é resultado do comportamento do homem diante de Deus e não de um ataque do diabo. A partir desse ponto de vista o texto apenas diz que netos e bisnetos sofrerão consequências sociais, financeiras e emocionais por causa do estilo de vida “iniquo” que o indivíduo vive, a palavra traduzida do hebraico para "iniquo" literalmente é aquele que transgride a lei. Sofrerão os descendentes de um homem rico se esse vier a perder tudo que possui na prostituição? Sofrerão os filhos de um assassino pelo estigma social deixado por seus pais diante das pessoas que relacionam o restante da família com ele? Sim e sim, é disso que o texto trata, e não de uma perseguição cósmica de um ser onipotente que coloca na linhagem de alguém um espírito maligno familiar de estimação para atormentar sua linhagem durantes as quatro gerações seguintes. 
Os filhos copiam e repetem o comportamento de seus pais, a sua maneira de relacionar com os filhos, sua reação diante das diversas situações, nesses casos, uma mudança da vida, através de uma verdadeira conversão ao evangelho lhe fará infinitamente mais bem que todas as sessões de quebra de maldições e exorcismo que você queira atender, a diferença, além do resultado inexistente da quebra de maldição, e que este lhe custará mais caro financeiramente que o evangelho grátis de Jesus, e não há nada mais maldito que herdar a falência dos pais.
Na verdade, a teoria dos espíritos familiares vem de um outro erro de tradução e exegese, a palavra “espíritos familiares” forma traduzida da palavra hebraica "obe", que é uma variação de "ab” da palavra hebraica para "pai" termo de muito respeito e honra na cultura judaica. Muitos nomes de famosos personagens bíblico começam com esse prefixo "ab", Abimeleque, Abinadabe, Absalão, mesmo nome Abraão começa com o mesmo prefixo "ab". Seu nome era um nome respeitado que significava "pai de muitos" ou "pai dos fiéis." No entanto “obe” é uma variação que ganhou uma conotação negativa por sua associação com agoureiros e feiticeiros, tomando os significando de “autoridade maligna” ou “pai maligno”.  No Antigo Testamento os falsos profetas, charlatões, adivinhos, que queriam se passar por enviados de Deus sempre adicionavam o prefixo “obe” ao seu nome afim de adquirir certo “status” e respaldo diante do povo. Do prefixo “ab” forma-se também a palavra “aba” pai, ou aquele que tem autoridade.


Portanto o termo que foi traduzido para a versão em latim da Bíblia como “espírito familiar” foi “obe” que é uma variação de “ab” e não se refere a família, mas “aquele que tem autoridade” se opondo inteiramente ao termo “familiaris” do latim que significa "servo doméstico". Portanto ao se traduzir “obe” para “familiar” o tradutor cometeu um grande erro ao inverter o sentido primário contextual pelo qual os adivinhadores e falsos profetas adicionavam o prefixo “obe” ao seu nome, a busca de um título que lhes conferisse autoridade diante do povo. A palavra “obe” ocorre 11 vezes no Antigo Testamento, em Levítico 19:31; 20:6; 20:27 Isaías 8:19; 2 Crônicas 33:6; 2 Reis 23:24; 2 Reis 21:06; 1 Samuel 28:3-25; 1 Crônicas 10:13; Deuteronômio 18:11; 1 Crônicas 10:13-14 em todos as vezes relacionada a agoureiros, adivinhadores e toda sorte de guias e gurus, mas nenhuma vez relacionada a um demônio que habitasse uma árvore genealógica específica como proposto no movimento da guerra espiritual. Os homólogos dos “obe” no Novo Testamento são exatamente os falsos profetas, mesma classe que reclama para si autoridade espiritual, afim de enganar os eleitos:
"Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas se levantarão e mostrarão grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, até os escolhidos" (Mateus 24:24). "Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios" (1 Timóteo 4:1).
A ironia dessa verdade é que os falsos profetas da guerra espiritual os mesmos “obe (s) ” os mesmos embusteiros falsos profetas que a Bíblia nos adverte a não consultar e ouvir estão em nosso meio. Algo que eu não poderia deixar de comentar, e que o “orbe” falsos profetas, adivinhos e agoureiros que viviam entre o povo de Israel faziam suas mágicas no nome de Yaveh, o que lhes permitia habitar entre o povo sem encontrar oposição alguma, a pitonisa de Saul é um exemplo claro. O que Saul encontrou quando consultou a pitonisa seria o mesmo que encontraríamos hoje em certos meios cristãos que consultam os espíritos em nome de Jesus. A minha conclusão é que a grande ameaça ao evangelho nunca foi a oposição reconhecível e aberta de outras religiões, mas vem de dentro, da liderança e dos falsos profetas que usam seu “obe” para enganar os escolhidos, eles estão na TV, nos rádios, nos templos e nas campanhas e nunca se cansam, de dia ou de noite, de enganar os escolhidos.
Sou categórico no que afirmo, e o digo por experiência própria, existem dois tempos de ignorância na vida de um evangélico, um antes da conversão e outra depois da conversão. Cabe a cada um buscar a luz mesmo que apalpando em meio a escuridão.

Wesley Moreira escritor e colunista do Púlpito Cristão

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