segunda-feira, 25 de maio de 2015

A Circuncisão do Coração

Dentre os rituais prescritos na lei mosaica, nenhum era mais radical do que a circuncisão. Trata-se de um procedimento cirúrgico no qual se remove o prepúcio, a pele que recobre a glande do órgão reprodutor masculino, tão invasivo e traumático quanto o corte do cordão umbilical. Diferentemente de outras cerimônias como as que exigiam o sacrifício de animais, a circuncisão deixava uma marca no corpo do indivíduo.

Na verdade, a circuncisão foi instituída bem antes da lei, servindo de selo da aliança entre Deus e os descendentes de Abraão. Todo filho varão deveria ser circuncidado ao oitavo dia (G.17:10-12). O próprio Jesus precisou ser submetido ao rito.

Atualmente, muitos defendem a circuncisão como uma medida de higiene, útil para impedir o acúmulo de secreção genital no espaço entre a glande e o prepúcio, região comumente foco de infecções. Pesquisas apontam os benefícios práticos da circuncisão como a redução de infecções urinárias, câncer peniano e câncer do colo do útero nas parceiras, doenças sexualmente transmissíveis, dentre as quais o HIV. Apesar do valor atribuído pela medicina moderna à prática, gostaria de propor uma investigação bíblica em busca de seu sentido simbólico/espiritual.

O escritor sagrado diz que os ritos e cerimônias da lei têm “a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas” (Hb.10:1). Paulo complementa dizendo que a realidade para a qual eles apontam se encontra “em Cristo” (Col.2:16-17). Portanto, muito mais do que uma medida higiênica e preventiva, a circuncisão encerra em si um significado mais amplo e profundo.

Bem da verdade, a circuncisão acabou se tornando motivo de muita controvérsia na igreja primitiva. Alguns discípulos judeus achavam que qualquer gentio que se convertesse à fé deveria se submeter ao rito. Somente assim, o novo convertido seria aceito na comunidade dos cristãos, sendo oficialmente incluído entre os descendentes de Abraão.

Paulo foi um dos que mais combateram tal crença. Segundo o apóstolo, o que antes era um sinal da aliança entre Deus e Abraão, agora se tornara numa ferramenta para manter as pessoas reféns de uma religiosidade frívola e vã.

“Tendo cuidado”, advertiu Paulo, “para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e tendes a vossa plenitude nele, que é a cabeça de todo principado e potestade, no qual também fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mãos no despojar do corpo da carne, a saber, a circuncisão de Cristo” (Col.2:8-11).

Portanto, a circuncisão instituída na lei era apenas uma sombra da verdadeira circuncisão à qual somos submetidos em Cristo. N’Ele alcançamos a plenitude; em outras palavras, não nos falta nada. Estamos completos. Sua graça nos basta. Não há acréscimos a fazer.

Alguns discípulos mais moderados achavam que a circuncisão deveria ser encarada como algo opcional. Quem quisesse, poderia ser circuncidado. Quem não quisesse, poderia manter-se incircunciso. Porém, Paulo, prevendo que isso promoveria a divisão dos cristãos em duas classes distintas, opôs-se radicalmente. “Se vos deixardes circuncidar”, alerta o apóstolo, “Cristo de nada vos aproveitará” (Gl.5:2). E a lógica que ele usava era imbatível: “E de novo protesto a todo o homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei” (v.3). Não dava para transigir. Quem quisesse viver sob a égide da lei, teria que observá-la por completo. Ou tudo, ou nada. Ou se vive pela lei, ou se rende à graça. E ele mesmo sentencia: “Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído” (v.4).

Para Paulo, aquela era uma questão há muito superada. Transformá-la num cavalo de batalha era total perda de tempo. Por isso, ele se nega a pôr panos quentes. O assunto tinha que se encerrar ali mesmo. “Porque”, afinal, “em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” (v.6). E arremata: “Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura” (Gl.6:15). Nem valor, nem virtude. Portanto, ninguém pode se gabar perante Deus pelo simples fato de ter sido circuncidado conforme prescrito na lei.

Em quase todas as suas epístolas, Paulo teve que retomar a questão, mesmo que a contragosto. A igreja sofria um ininterrupto assédio dos que defendiam a circuncisão como condição sine qua non para a salvação. Aos Filipenses, ele defende que a verdadeira circuncisão “somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne”(Fp.3:3). Ao contrário da lei que servira como plataforma de um sistema meritório, a graça derruba qualquer presunção humana, posto que revele nossa falência espiritual, a fraqueza de nossa carne e a nossa inabilidade em cumprir as demandas da justiça divina. Não dá para confiar em Cristo e confiar em nossa carne ao mesmo tempo. Qualquer tentativa de se estabelecer uma meritocracia sucumbe ante a radicalidade da graça.

Aos cristãos de Roma, ele alfineta:
“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.” Romanos 2:28,29
Circuncisão do coração? De onde Paulo teria tirado este conceito? Seria um conceito totalmente novo? Haveria algum indício no Antigo Testamento de que sob a nova aliança a circuncisão da carne seria substituída pela circuncisão do coração? E o que significaria tal circuncisão?

Jeremias, o mais emotivo dentre os profetas, admoesta:

“Circuncidai-vos ao Senhor, e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que o meu furor não venha a sair como fogo, e arda de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras.” Jeremias 4:4

Esta passagem vetero-testamentária deixa claro que a não circuncisão de nosso coração atrairia o juízo de Deus. Fica igualmente subentendido que nossas más obras nada mais são do que frutos de um coração incircunciso.

Mesmo durante a instituição da lei, muito antes da Era dos grandes profetas, Deus já havia Se comprometido a promover a circuncisão do coração do Seu povo. Portanto, não se trata de obra humana, mas divina. Leia o que diz Moisés sobre isso:

“E o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas.” Deuteronômio 30:6

Repare nisso: a circuncisão do coração é que nos possibilita a amar a Deus. Jesus disse que toda a lei foi resumida em dois mandamentos: Amar a Deus e amar ao próximo. Sem que o homem tenha seu coração circuncidado, ele jamais será capaz de cumpri-los. O cumprimento de ambos depende totalmente desta operação feita pelo Espírito Santo em nosso interior. E uma vez que sejamos incapazes de amar ao nosso semelhante, certamente lhe negaremos também a justiça.

“Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz. Pois o Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita subornos; que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa.” Deuteronômio 10:16-18

A paz só possível se houver justiça, e esta, por sua vez, só se cumpre onde haja amor. Todavia, há um prepúcio no coração de todo homem que o impede de ver isso. Paulo também se refere a esta cobertura como um véu capaz de endurecer o entendimento humano. Daí a advertência para que não endurecemos a nossa cerviz. Em outras palavras, temos que deixar de ser cabeça dura. Porém, para isso, o véu tem que ser removido. E isso só ocorre quando somos convertidos a Cristo (2 Co.3:13-18). Portanto, a genuína conversão equivale a ter o coração circuncidado.

Permita-me lançar mão de uma compreensão psicanalítica de nossa condição humana que parece ecoar a verdade anunciada nas Escrituras.

De acordo com Freud, todos nascemos narcisistas. Ao nascermos, todo o nosso amor é voltado para nós mesmos. Até a nossa mãe é vista como sendo uma extensão de nosso ser. Isso parece se encaixar perfeitamente com o que a teologia cristã diz acerca de nossa condição humana: todos nascemos em pecado (Sl.51:5). Pecado é, por definição, errar o alvo. Não fomos criados para o amor próprio, mas para amar a Deus e ao nosso semelhante. O amor próprio é, por assim dizer, a essência do pecado. Nascemos em pecado porque nascemos voltados para nós mesmos. Investimos todo o nosso afeto em nosso eu. O outro não passa de um espelho onde vislumbramos nossa imagem. É pelo outro que tomamos consciência de que existimos. O mundo parece nos orbitar. Até que ocorre um trauma de tal ordem que Freud chama de castração. Se o narcisismo é a entronização do “eu”, a castração é a sua deposição. Somos confrontados pela lei imposta pelo superego num processo chamado de Complexo de Édipo, através do qual descobrimos que nem todos os nossos desejos podem ser saciados. O papel do superego é nos munir de consciência moral, ditando-nos o bem a ser buscado, e o mal a ser evitado. É através da castração que a lei é cravada em nossa consciência, gerando uma estrutura psíquica neurótica, fundamentada no desejo e na culpa. Uma eventual falha na castração gerará uma estrutura psíquica psicótica, ou mesmo perversa, em que o sujeito é incapaz de se sentir culpado. Sem que haja culpa, também não haverá arrependimento. É necessário que a lei cumpra seu papel, a fim de que a graça entre em cena, de modo que se cumpra a célebre declaração apostólica: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm.5:20). Como cristão que crê no ministério do Espírito em convencer o homem acerca do pecado, da justiça e do juízo (Jo.16:8), creio firmemente que ninguém está imune à Sua eficiente atuação, nem mesmo o psicótico ou o perverso. Porém, esta atuação passa necessariamente pela admissão de culpa, sem a qual, jamais se alcançará a consciência grata pelo perdão. Sem a lei, não há evangelho possível. A lei condena para que o evangelho absolva.

Engana-se quem pensa que a lei foi legada exclusivamente aos judeus. Paulo afirma que mesmo os gentios “fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Rm.2:14,15). Esta tal lei no coração é o que Freud chama de superego.

É justamente a castração que nos lança para fora de nós mesmos e nos faz buscar no outro o que não encontramos em nós, posto que revele nossa desesperadora condição de incompletude.

Agora temos um ego suprimido pelo superego e uma terceira instância psíquica a que Freud chama de Id, que equivale ao que Paulo chama de “carne”. Digamos que o superego seja aquele anjinho que nos estimular a fazer o que é certo, enquanto que o Id é o diabinho que nos instiga a fazer o que é errado. Caberá ao ego arbitrar entre as demandas do superego e do Id.

Devido à nossa condição pecaminosa, somos bem mais propensos a atender aos apelos do Id do que aos estímulos do superego. Queremos saciar os desejos de nossa carne a qualquer custo, mesmo que isso resulte na infelicidade de outros. Diferente das estrelas ao redor das quais orbitam os mais variados planetas, tornamo-nos buracos negros que sugam tudo ao seu redor.

A castração não foi suficiente para nos tornar seres humanos plenos. Quando muito, devemos a ela nossa introdução à adolescência espiritual. A plenitude de que tanto carecemos se encontra na graça revelada em Cristo. Ela nos liberta da opressão do superego e da contínua pressão do Id.

A circuncisão do coração nos oferece um estágio para além da castração. Tanto o ego, quanto o superego são destituídos e em seu lugar entronizamos respectivamente a Cristo e ao Espírito Santo. "Estou crucificado com Cristo", declara Paulo, "e já não vivo eu, mas Cristo vive em mim" (Gl.2:20). O eixo ao redor do qual gira nossa existência deixa de ser nosso eu para ser Cristo, e a voz da nossa consciência deixa de ser a voz inquisitiva da lei para ser a doce e encorajadora voz do Espírito Santo. Somente o Id segue ocupando o mesmo lugar, posto que a carne jamais se converte. Somente nos livramos das pulsões de nossa natureza pecaminosa quando recebermos novos corpos e Deus for tudo em todos (1 Co.15:28; Fp.3:21).

Mediante a castração, fomos levados à Árvore do Conhecimento do Bem do Mal, mas somente pela circuncisão do coração somos reconduzidos à Árvore da Vida.

A partir daí, em vez de enxergar nossa própria imagem (narcisismo), passamos a enxergar em nós mesmos a imagem de Cristo e a flagrante transformação patrocinada pelo Espírito da Liberdade (2 Co.3:18). Finalmente, com o coração circuncidado, deixamos de viver para nós mesmos. Como declara Paulo, “o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si” (2 Co.5:14-15). Este santo constrangimento não apenas afeta a maneira como enxergamos a nós mesmos, mas também a maneira como enxergamos o outro. Paulo complementa: “Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne” (v.16). Em outras palavras, já não buscamos no outro nossa própria satisfação. O outro deixa de ser um mero item de nosso desejo, um sonho de consumo, e passa a ser visto e acolhido como alguém a quem devemos devotar despretensiosamente nosso amor. Pela graça tornamo-nos livres para amar tanto a Deus quanto a nosso próximo; não impulsionados pela culpa neurótica gerada pela lei (superego), mas pelo Espírito de Cristo; não pelo medo de sermos inadequados às expectativas dos outros, mas pelo prazer de encontrar na felicidade alheia a razão de nossa própria felicidade.


Pode-se dizer, então, que o ser concebido no ambiente uterino só alcançará a plenitude de sua humanidade ao ser regenerado, passando pela circuncisão de seu coração.

Hermes C. Fernandes

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