sábado, 30 de abril de 2011

Com vontade de desistir

O Salmo 137 é um belíssimo cântico sobre fé, dor e superação. Ele nos mostra um povo que adorava cantar e salmodiar ao seu Deus, mas que estão à beira da uma “aposentadoria espiritual”. Diz-se dos jogadores aposentados que eles “penduraram as chuteiras” os cantores de Jerusalém também se viam no fim. Estavam “pendurando” suas harpas. E, nós, do que estamos desistindo? Nossas perdas estão nos fazendo pendurar as harpas?
O povo de Israel estava cativo. Havia sido deportado para a Babilônia. Eram prisioneiros de guerra, exilados. Choravam ao lembrar-se de Sião: “Junto dos rios de babilônia, ali nos assentamos e choramos, quando nos lembramos de Sião” (v.1). Levavam consigo suas harpas. Mas a harpa era um instrumento de louvor e não havia motivos para louvar agora, pois eles estavam sofrendo o juízo divino. Por isso o salmista e todos os harpistas “penduram a harpa” num salgueiro na Babilônia: Sobre os salgueiros que há no meio dela, penduramos as nossas harpas. (v.2).
É digno de nota o fato dos tocadores levarem as harpas para o exílio. Talvez pensassem na música como uma forma de aliviar a dor do exílio e aplacar a saudade. Podemos ser banidos, mas sempre levaremos conosco aquilo que está em nossa alma ao ponto de não ser possível deixar para trás. Mas, estranhamente, quando solicitados a tocar, se enfezam e proclamam uma precoce aposentadoria musical. Talvez porque fossem os inimigos que pedissem uma canção: “Pois lá aqueles que nos levaram cativos nos pediam uma canção; e os que nos destruíram, que os alegrássemos, dizendo: Cantai-nos uma das canções de Sião. Como cantaremos a canção do SENHOR em terra estranha?” (v.3,4).
As perdas na vida são inevitáveis, mas é preciso saber que nem tudo está perdido e que nenhuma perda é absoluta. A perda (nesse texto) foi da posse da terra, o que era um referencial para o povo hebreu. Mas, em nossas vidas as perdas podem ter outras dimensões. Coisas, pessoas ou lugares que nos foram tirados e que tinham uma importância singular. Diante de algumas delas, podemos sucumbir à tentação de, a exemplo dos músicos deste salmo, pendurarmos nossas harpas. Antes, porém, é importante saber dimensionar a perda e, principalmente, valorizar aquilo que não se perdeu.
Eis alguns conselhos:
1. É preciso saber o quê perdemos, o quê não perdemos e porque perdemos. Precisamos entender o sentido e a dimensão da perda.
2. É preciso crer que nem tudo está perdido quando algo está perdido por maior que seja esse algo.
3. Eles não deixaram as harpas em Jerusalém. Logo, não abandone seus dons.
4. Mesmo no exílio, há pessoas que querem ouvir você cantar.
5. Eles não deixaram de cantar. O cântico mudou, mas não cessou. Eles até intentaram abandonar tudo (VS. 3), mas o próprio salmo é uma prova de que continuaram cantando, posto que salmos são cânticos.
6. Uma canção no exílio ainda é melhor que o silêncio no exílio.
7. Por fim, se cremos que a terra da qual fomos exilados é uma promessa divina, podemos crer que para lá retornaremos um dia. Afinal, para aquele que crê, todo exílio é temporário. Pois a fidelidade de Deus é como aquela terra que deixamos: nada nem ninguém podem remover.

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