quarta-feira, 5 de maio de 2010

Uma palavra boa para as esposas

Refreamos os cavalos no último sermão sob o título de "Boa Esposa", e como há boa diversão sob esse título para o homem, se não para o bruto, nós nos deteremos nele por um intervalo para mergulhar a caneta em uma tinta superfina em que não há nenhuma amargura. João Lavrador deve estar em sua melhor forma para escrever sobre um assunto tão sério.
É impressionante quantos velhos ditados existem contra as esposas, há dezenas deles. Anos atrás, os homens mostravam o lado rude de suas línguas toda vez que falavam de suas esposas. Alguns desses ditados são até mesmo chocantes; como aquele muito maldoso que diz: "Todo homem passa dois dias bons com a esposa: o dia em que se casa com ela e o dia em que a enterra", e aquele outro: "Quem perde a esposa e um centavo sofre uma grande perda com o centavo".
Lembro-me de uma velha balada que Gaffer Brooks costumava cantar sobre o homem que estava melhor enforcado que casado, o que demonstra como era comum criticar a vida de casado. Nem seria bom imprimi-la, mas aqui está ela ou o que dela ficou mais vivo em minha lembrança:
Havia uma vítima em uma carroça, a um dia de ser enforcada,
A pena foi suspensa por um tempo, E a carroça foi parada.
Case e salve sua vida,
Gritou o juiz em voz alta;
Oh, por que deveria eu corromper minha vida?
Respondeu a vítima.
Aqui há uma multidão heterogênea,
Por que iria eu evitar a diversão?
Pechinchar é difícil em todo lugar, e a esposa é o pior condutor de carroça.
Bem, essa bobagem não prova que as mulheres são más, mas que seus maridos não servem para nada ou não diriam calúnias tão abomináveis sobre as companheiras. O galho mais podre arrebenta antes, e ao que parece o lado masculino da casa é o pior dos dois, por isso, com certeza ele faz os piores ditados. Não há dúvida houve algumas esposas extremamente más no mundo que provocaram tanto o homem a ponto de ele dizer: "Se uma mulher fosse tão pequena quanto é boa, a casca de uma ervilha serviria de vestido e de capuz para ela". Mas quantos milhares de encontros providenciais valem mais que seu peso em ouro! Na Bíblia, há apenas uma mulher de Jó e uma Jezabel, mas uma quantidade sem-fim de Saras e Rebecas. Via de regra, penso como Salomão: "Quem encontra uma esposa encontra algo excelente", os vizinhos sempre sabem se houver um centavo mal gasto na mercearia, mas o relatório não fala sobre os milhares bem gastos. Uma boa mulher não faz barulho, e nenhum alarido é feito sobre ela, mas uma mulher rabugenta é conhecida em toda a igreja. Elas são as criaturas mais angelicais do mundo quando as recebemos como esposas em tudo e por tudo, e a maioria delas é boa demais para os maridos que tem.
A crédito das mulheres já é muito dizer que há alguns velhos ditados contra os maridos, apesar de, nesse caso, os direitos serem os mesmos para todos, e a égua ter as mesmas razões que o cavalo para dar coices. Mas eles devem ser muito indulgentes ou seria como dar um Roland (grande defensor dos cristãos contra os sarracenos na batalha de Roncesvalles, nas histórias sobre Carlos Magno) para cada Oliver (o amigo mais próximo de Roland). Meus caros, elas são muito mais rápidas na conversa, mas não faz parte da natureza das moças bonitas e dos sinos soarem com facilidade? Afinal, elas não podem ser tão más ou teriam se vingado das coisas cruéis que são ditas sobre elas. Se são um pouco arbitrárias, seus maridos não devem ser tão vítimas assim ou teriam certamente senso suficiente para segurar a língua delas. Os homens não temem que se saiba que são governados pelas esposas, e tenho certeza que os velhos ditados não passam de zombaria, pois se fossem verdadeiros, os homens jamais ousariam admiti-los.
A verdadeira esposa é a melhor parte de seu marido, seu encanto, sua flor de beleza, seu anjo guardião, o tesouro do seu coração. Ele diz a ela: "Com você eu serei muito feliz. Eu escolhi você e me regozijo com isso. Em você encontrei a alegria de espírito. A escolha de Deus é minha alegria". Em sua companhia ele encontra seu paraíso na terra; ela é a luz do lar, o conforto da sua alma e (para este mundo) o âmago do seu conforto. Por mais que tenha fortuna, ele só será rico enquanto ela viver. Sua costela é o melhor osso do seu corpo.
O homem que casa com uma mulher amorosa
Seja o que lhe acontecer na vida,
Suporta tudo;
Mas o que encontra uma companheira maldosa,
Nenhum bem pode entrar pelo seu portão e Sua taça estará cheia de fel.
Um bom marido faz uma boa esposa. Alguns homens não conseguem se realizar nem com esposas nem sem elas; eles são infelizes sozinhos naquilo que chamamos de celibato e, quando casam, seu lar é infeliz. Eles são como o cão do Tompkin que não acha o caminho de volta quando sai e uiva quando está preso. Bacharéis felizes são como maridos felizes, e um marido feliz é o mais feliz dos homens. Um casal bem entrosado carrega uma vida de felicidade, assim como dois espiões carregam os cachos de uva. Eles são um casal de pássaros do paraíso. Eles multiplicam suas alegrias ao compartilhá-las e diminuem suas dificuldades ao dividi-las; isso é excelência em matemática. O vagão do carinho desliza suave enquanto eles se atraem reciprocamente; e quando ele se arrasta de forma mais vagarosa ou aparece um obstáculo em algum ponto, eles se amam ainda mais e, assim, tornam o trabalho mais leve.
Quando um casal se separa há sempre erros dos dois lados, e geralmente na mesma proporção. Com freqüência, quando um lar é infeliz, o erro é tanto do marido como da esposa; a culpa é tanto de Darby como de Joan (Darby & Joan uma canção muito conhecida por volta de 1820). Se o marido não guarda o açucareiro no guarda-louça, não é de se admirar que a esposa fique azeda. A falta de pão traz falta de amor; se a carne for magra, os cachorros brigam. A pobreza do lar geralmente faz com que o homem carregue o lar nas costas, porque não é muito comum a mulher sair para trabalhar por salário. Um conhecido nosso deu a sua mulher um anel com a seguinte gravação: "Se você não trabalhar, não poderá comer". Ele era um bruto. Não é função dela trazer a farinha para casa, ela precisa usar bem a farinha e não desperdiçá-la. Por esse motivo, digo que as coisinhas simples não são erro dela. Não é ela quem sustenta a família, mas sim quem faz o pão. Ela ganha mais em casa do que qualquer salário que pudesse conseguir fora. (continua)

Charles H. Spurgeon

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