terça-feira, 4 de maio de 2010

A circuncisão do coração

7. "Todas as coisas são possíveis a ele que", assim, "acredita". "Com os olhos de seu entendimento, sendo iluminados", ele vê qual é o seu chamado: sempre glorificar a Deus, que o comprou, com tão alto preço, em seu corpo, e em seu espírito, que agora são de Deus, pela redenção e criação. Ele sente qual é a "grandeza excelente desse poder", que ressuscitou Cristo da morte, de modo que é capaz de vivificar a nós, mortos no pecado, "pelo seu Espírito que habita em nós". "Essa é a vitória, que supera o mundo, mesmo nossa fé"; aquela fé, que não é apenas uma aquiescência inabalável, para todos aqueles a quem Deus tem revelado nas Escrituras, -- e, em particular, para aquelas verdades importantes: "Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores"; "Ele suportou nossos pecados, em seu próprio corpo, sobre a árvore"; "Ele é a expiação para nossos pecados, e não apenas para os nossos, mas também, para os pecados de todo o mundo"; [A parte seguinte desse parágrafo é agora acrescida ao sermão, anteriormente, pregado] – mas, igualmente, a revelação de Cristo, em nossos corações; a evidência ou convicção divina de seu amor; que eu, que sou um pecador não mereço; a confiança certa, em sua misericórdia clemente, forjada em nós, pelo Espírito Santo; a confiança, por meio da qual, todo crente verdadeiro é capacitado a dar testemunho: "Eu sei que meu Redentor vive"; que eu tenho um "advogado com o Pai"; que "Jesus Cristo, o justo", é o meu Senhor, e a "expiação de meus pecados". Eu sei que ele tem "me amado, e dado a si mesmo por mim". Ele tem me reconciliado - mesmo a mim - para com Deus; e eu "tenho redenção, através de seu sangue, até mesmo o perdão dos pecados".
8. Tal fé, como essa, não pode falhar ao mostrar, evidentemente, o poder Dele que a inspira, livrando seus filhos do jugo do pecado, e "purificando a consciência deles das obras mortas"; fortalecendo-os assim, para que eles sejam, não muito longe, constrangidos a serem obedientes ao pecado, aos desejos dele; mas, ao invés de permitirem seus membros, como instrumentos de iniqüidade, "permitirem a si mesmos", inteiramente, "para Deus, como aqueles que ressurgiram da morte".
9. Aqueles que são assim, pela fé, nascidos de Deus, têm também forte consolo através da esperança. Essa é a próxima coisa com a qual a circuncisão do coração implica; mesmo o testemunho do próprio espírito deles, com o Espírito o qual testemunha em seus corações que [O parágrafo seguinte foi agora acrescido ao sermão, anteriormente, pregado] eles são filhos de Deus. De fato, é o mesmo Espírito que opera neles essa confiança clara e agradável, que o coração deles está aprumado, em direção a Deus; aquela confiança boa, de que eles agora fazem, através da sua graça, as coisas que são aceitáveis aos seus olhos; que eles estão agora, no caminho que os conduz à vida, e devem, pela misericórdia de Deus, permanecer até o fim. É Ele que dá a eles a expectativa vivaz de receber todas as coisas boas das mãos de Deus; um prospecto jubiloso daquela coroa de glória, que lhes está reservada nos céus. Por essa âncora, o cristão é mantido firme, no meio das ondas desse mundo problemático, e preservado de arrebentar-se, em qualquer uma dessas rochas fatais, presunção e desespero. Ele não é desencorajado, por não entender a severidade de seu Senhor; nem Ele menospreza as riquezas de sua benevolência. Ele não teme que as dificuldades do curso da vida, colocadas diante dele, sejam maiores do que ele tem forças para conquistar; nem espera que elas sejam, tão pequenas, como para se submeterem na conquista, até que ele tenha aplicado toda a sua força. A experiência que ele tem na arte de guerra cristã, como essa, assegura a ele que seu "trabalho não é em vão", se "o que quer que ele tenha de fazer, ele o fizer com todo seu poder". Isso o proíbe de cogitar qualquer pensamento inútil, como o de obter alguma vantagem, quando nenhuma virtude pode ser mostrada; qualquer elogio obtido, por corações lânguidos e mãos fracas; ou, de fato, por qualquer um, a não ser aqueles que procuram a mesma direção com o grande Apóstolo dos gentios — "Eu", diz ele, "então, sigo, não de maneira incerta; luto, não como alguém que dá socos no ar: mas eu reprimo meu corpo, e o trago em sujeição; a fim de que, por algum meio, quando eu pregar a outros, eu mesmo possa ser um réprobo".
10. Pela mesma disciplina, é todo bom soldado de Cristo, habituando-se a suportar privação. Confirmado e fortalecido por isso, ele será capaz, não apenas, de renunciar às obras da escuridão, mas a todo apetite também, e toda afeição, que não estejam sujeitos à lei de Deus. Porque "cada um", diz, João, "que tem essa esperança, purificada em si mesmo, assim como Ele é puro", deverá ter o cuidado, diário, pela graça de Deus, em Cristo, e através do sangue da aliança, de purgar, os recessos mais íntimos de sua alma, da luxúria, que antes a possuiu e a corrompeu; da impureza, inveja, malícia, e ira; de toda paixão e temperamento que está atrás da carne, que brote, ou nutra sua corrupção inerente: Sabendo que seu corpo é o templo de Deus, não deverá admitir coisa alguma, vulgar ou impura, nele; e a santidade fará morada para sempre, onde o Espírito da santidade autoriza morada.
11. Ainda assim, quem quer que tu sejas, tu necessitas de uma coisa: que se junte a esperança vívida, à humildade profunda, e à fé firme, e, por meio disso, numa boa medida, limpe teu coração da poluição inata. Se tu fores perfeito, acrescenta a todos esses, misericórdia; acrescente amor, e tu terás a circuncisão do coração. "O amor é o que cumpre a lei, é a finalidade do mandamento". Muitas coisas excelentes são faladas sobre o amor; ele é a essência, o espírito, a vida e toda a virtude. Ele não é apenas o primeiro e grande mandamento, mas é todos os mandamentos em um. "Por mais que as coisas sejam justas; por mais que as coisas sejam puras; por mais que as coisas sejam agradáveis, ou honradas"; se há alguma virtude, se há algum louvor, "eles estão todos comprimidos nessa única palavra, — amor". Nisso há perfeição, glória, e felicidade. A lei excelente dos céus e terra é essa: "Tu deves amar o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente, e com toda as tuas forças".
12. Não que isso nos proíba de amar alguma coisa, além de Deus: Ele implica que nós amemos nosso irmão também. Nem ainda, ele nos proíbe (como alguns têm estranhamente imaginado) de ter prazer em coisa alguma, a não ser em Deus. Supor isso é supor que a Fonte da santidade seja diretamente o autor do pecado; já que ele tem, inseparavelmente, juntado prazer, para o uso daquelas criaturas, as quais são necessárias para sustentar a vida que ele nos tem dado. Isso, entretanto, nunca pode ser o significado de seu mandamento. Qual o sentido real dele, ambos, nosso amado Senhor e seus Apóstolos nos dizem, muito freqüentemente, e muito plenamente, para ser mal interpretado. Eles todos testemunham, com uma só boca, que o significado verdadeiro dessas declarações diversas é: "O Senhor teu Deus é o único Senhor"; "Tu tens amado o Senhor teu Deus com todas as tuas forças"; "Tu deves ser fiel a ele"; "O desejo de tua alma deve ser o nome Dele"; -- não existe outra do que essa: O único Deus perfeito deve ser a finalidade última de vocês. Uma coisa vocês devem desejar, por causa dele, -- o proveito Dele, que é Tudo em Todos. Uma felicidade, nós podemos propor, para as almas de vocês, sempre uma união com ele que as fez; tendo "camaradagem com o Pai e o Filho"; sendo unidos ao Senhor, em um só Espírito. Um objetivo vocês devem perseguir, até o fim dos tempos, — a alegria de Deus, no tempo e na eternidade. Desejar outras coisas, tanto quanto elas puderem conduzir a isso. Amar as criaturas, já que elas procedem do Criador. Mas, em cada passo que vocês derem, seja esse o ponto glorioso que divise o objetivo de vocês. Deixem todas as afeições, pensamentos, palavras, e obras estarem subordinados a isso. O que quer que vocês desejem ou temam; o que quer que vocês busquem ou evitem; o que quer que vocês pensem ou façam, seja com o objetivo de sua felicidade em Deus, a única finalidade, e a única fonte de sua existência.
13. Não existe fim, para o fim extremo, do que Deus. Como diz nosso Senhor: "Uma coisa é necessária": E se teus olhos estiverem unicamente fixados nessa única coisa, "todo teu corpo será cheio de luz". Como diz Paulo: "Uma única coisa eu faço: eu me pressiono, em direção à marca, para o prêmio do chamado ilustre, em Cristo Jesus". Assim diz Tiago: "Limpem suas mãos, vocês, pecadores; e purifiquem seus corações, vocês irresolutos". Assim diz João: "não ame o mundo, nem as coisas que existem no mundo. Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a lascívia do olho, e o orgulho da vida, não são de Deus, mas do mundo". A felicidade buscada que gratifica o desejo e a carne, por, agradavelmente, incidir sobre os sentidos externos; o desejo do olho, da imaginação, por sua inovação, magnificência, ou beleza; ou o orgulho da vida, se pela pompa, grandeza, poder, ou, a conseqüência usual deles, aplauso e admiração; -- "não são do Pai", não vêm, e, muito menos, são aprovados, pelo Pai dos espíritos; "mas do mundo": Essa é a marca que distingue aqueles que não terão a Ele para reinar sobre si mesmos.
II.
1. Assim, eu tenho, particularmente, inquirido do que se trata a circuncisão que irá obter o louvor de Deus. Eu vou mencionar, em Segundo lugar, algumas reflexões que, naturalmente, se erguem de tal questionamento, como uma regra clara, por meio da qual, todo homem pode julgar, por si mesmo, se ele é de Deus ou do mundo. Primeiro: Fica claro, pelo que foi dito, que nenhum homem tem o mérito do louvor de Deus, a menos que seu coração seja circuncidado pela humildade; a menos que ele seja pequeno, vulgar, e vil, aos seus próprios olhos; a menos que ele esteja convencido, profundamente, dessa inata "corrupção de sua natureza", "por meio da qual, ele está muito longe da retidão original", estando inclinado a todo o mal, avesso a todo o bem, corrupto e abominável; tendo uma "mente carnal, em inimizade para com Deus, não se submetendo à Sua lei; nem ele, de fato, conseguirá isso"; a menos que sinta, continuamente, no mais íntimo de sua alma, que, sem o Espírito de Deus, latente sobre ele, ele nunca poderá pensar, falar, ou fazer alguma coisa boa, ou agradável, aos olhos Dele. Nenhum homem, eu afirmo, tem o mérito do louvor de Deus, até que ele sinta sua necessidade de Deus; nem, realmente, até que ele busque aquela "honra que vem de Deus apenas"; nem deseje ou vá atrás daquilo que vem do homem, a menos que tenda, tão somente, a isso.
2. Uma outra verdade que se segue, naturalmente, ao que já foi dito, é, que ninguém deverá obter a honra que vem de Deus; a menos que seu coração seja circuncidado pela fé; mesmo a "fé da operação de Deus": A menos que, recusando-se a, não mais, ser conduzido pelos seus sentidos, apetites, ou paixões, ou por aquele guia de cego, tão idolatrado pelo mundo, o raciocínio natural, ele viva e caminhe pela fé; dirigindo cada passo, como que "buscando a Ele que é invisível"; "olhe, não para as coisas que são vistas, as quais são temporais, mas para as coisas que não são vistas, e que são eternas"; e governe todos os seus desejos, desígnios, e pensamentos, todas as suas ações e conversas; como alguém que é incorporado dentro do véu, onde Jesus está sentado à direita de Deus.  (continua)

John Wesley

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