terça-feira, 9 de março de 2010

O Trabalho e a Bíblia

O trabalho é uma realidade muito importante na vida humana. É característica também da vida divina. Cremos num Deus trabalhador, que atua não apenas na criação, mas também na providência, no sustento e na conservação do mundo. Conforme o registro de João 5.17, Jesus disse: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”.
Nós seres humanos fomos criados para trabalhar: não só, mas também para trabalhar. Isto está expresso nos relatos que abrem a Bíblia: Em Gênesis 1.28, que traz a ordem divina aos seres humanos no sentido e sujeitar a terra e dominar sobre os animais, mostrando que tudo está colocado por Deus sob nossos cuidados, e a nosso serviço – sob os cuidados e a serviço de todos nós. E em Gênesis 2.15, que diz que a tarefa do ser humano é cultivar e guardar o jardim do Éden.
Trabalho é bênção, não maldição; nem castigo pelo pecado – pois já existia antes da queda. O castigo que decorre do pecado não é o trabalho, mas o seu caráter penoso, afadigador (cf. Gn3.17-19).
A Bíblia tem uma visão positiva do trabalho, que contrasta com a de outras culturas. Na cosmovisão bíblica, todo trabalho é valorizado por igual, seja intelectual, seja manual. Pois todos são necessários, mesmo os que parecem menos relevantes.
O ideal do trabalhador é encarnado pelo rabi, que desenvolve trabalho intelectual, imprescindível à vida da comunidade, mas também ganha o sustento com o trabalho de suas mãos. É o que se vê nas vidas de Jesus (o carpinteiro), Paulo (o fazedor de tendas) e Pedro (o pescador), por exemplo. De fato, todas as pessoas devem trabalhar. Mas, por que trabalhar? Como encarar o trabalho à luz da visão bíblica?
TRABALHO COMO NECESSIDADE
A vida depende do trabalho. Este é fonte de sustento próprio e dos que de nós precisam. É realidade inescapável. Não andar ansioso quanto ao comer, beber ou vestir, como ensina Jesus em Mateus 6.25-34, não é estímulo à preguiça, nem significa não ter que trabalhar, nem implica em deixar de ser previdente. E o Salmo 127.1-2 certamente não se aplica a desocupados.
Quem quer ter as coisas, uma boa e digna condição de vida, tem de trabalhar por isso. A menos que possa viver de herança (como poucos) ou precise depender dos outros, como as crianças pequenas, os doentes crônicos, os portadores de determinadas deficiências, os muito idosos. Mas os muitos idosos certamente já fizeram bastante por si e por tantos, merecendo mais descanso e cuidado. E mesmo os doentes e deficientes podem, em muitos casos, desenvolver inúmeras atividades. E as crianças devem desde cedo, desde a casa, aprender a importância e o valor do trabalho, para que sua dependência dos pais ou responsáveis seja curta. Outra opção é roubar; mas essa é indigna, vergonhosa, indefensável – ainda que seja tão grande o número daqueles que acham que para ter as coisas basta tirá-las dos outros. Só o trabalho deve ser visto como meio de conquistar as coisas, de subir na vida. A formiga é nosso exemplo, não a cigarra (como na fábula). Claro, não é saudável ser viciado em trabalho, ver o trabalho como fim em si mesmo. Ele é meio de subsistência. Trabalhamos para viver, não vivemos para trabalhar. Mas sem trabalho não há dignidade. Nosso lado-cigarra não pode curtir a vida sem que nosso lado-formiga nos dê as condições para isso. A propósito, sempre vale lembrar as exortações de 2Tessalonicenses 3.6-12.
TRABALHO COMO POSSIBILIDADE DE CRIAR
O trabalho é fonte de realização pessoal, expressão de liberdade. Mesmo os poucos que não precisam trabalhar para comer precisam desenvolver alguma atividade para serem pessoas plenas. Pois fomos criados como seres criadores, criativos.
Há tantas opções – tantas coisas a fazer com as mãos e a cabeça. Tantas coisas belas como a arte, tantas úteis como a ciência. A humanidade já teria desaparecido sem o trabalho. No mínimo, teria morrido de tédio. Aqui é importante dizer que trabalho não se confunde com emprego. É muito mais. Trabalho não é só emprego, não é só para ganhar dinheiro. De fato, as melhores coisas que fazemos na vida não são remuneradas: o cuidado da nossa família, da nossa casa, das nossas amizades, dos animais e das plantas, das nossas coisas pessoais, e todo o serviço da Igreja, a começar do culto. São tarefas alegres, criativas, geradores de grande satisfação. Para todas as idades.
Nesse sentido, a vantagem da aposentadoria não é que então a gente pode ficar à toa, mas sim que se tem mais tempo para os melhores e mais gratificantes trabalhos. Pois trabalho é meio de criação de coisas bonitas e boas. E não só para nós mesmos, mas também para outros. E assim chegamos a uma terceira característica do trabalho, segundo as Escrituras:
TRABALHO COMO OPORTUNIDADE DE SERVIÇO
O trabalho é fonte de utilidade – meio de abençoar pessoas e assim glorificar a Deus.
Com o sustento que ganhamos, com nossas capacidades criadoras, podemos e devemos socorrer os necessitados. Podemos dar, que é melhor que receber (cf. At 20.34s, que nos transmite raro ensino do próprio Senhor Jesus fora dos Evangelhos).
O trabalho é fonte de sentido último para a existência; afinal, devemos viver para promover o bem, e é assim, pelo nosso serviço e doação aos outros, que nos fazemos mais parecidos com o Criador bondoso que nos fez e ao nosso mundo.
Nosso tempo, nossa inteligência, nossos bens materiais, nosso esforço só têm sentido e real serventia quando usados para o bem. Há tantos que usam seus recursos para o mal, ou de maneira egoísta. Mas outra é a escolha da Igreja, a serviço da vida, do bem, da paz, por meio de trabalho.
Todo trabalho é digno, importante, útil – e deve ser bem feito. Os reformadores entendiam isso muito bem, quando diziam que toda profissão é fruto de vocação. Vocação não é só religiosa, é secular também. E é sempre dada em vista do mundo. Qualquer que seja a nossa atividade, ela é oportunidade de serviço às pessoas e à comunidade humana.
Trabalhar é importante – não só para comer, mas também para criar e servir. Deve ser sempre bem feito. Com gratidão, com amor, com alegria.
Não é pelo que ganhamos, nem se ganhamos que trabalhamos – é porque o trabalho nos faz plenamente humanos, gente abençoada e abençoadora. Se o seu salário não é bom, não é o que você gostaria, o que você precisa, o que você acha que merece, isso é outra questão. Mas não é por isso que seu trabalho será malfeito, ou feito com tristeza, ou com má vontade. Nem você deve ver seu trabalho apenas como sua atividade profissional. Ele é muito mais do que isso. É tudo o que você já faz. É tanta coisa que você ainda pode fazer. É para seu bem. É para o bem das pessoas e do mundo. É para a glória de Deus. Que você compreenda assim, e viva uma vida de trabalho abundante.
Por Rev. Paulo Severino da Silva Filho

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