quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O sucessor de Lutero


Filipe Schwarzerd nasceu em 1497 na Alemanha. Sua mãe era sobrinha do famoso humanista João Reuchlin e foi sob a influência desse tio que o menino Filipe se educou. Mostro-se tão profundo nos estudos de grego que Reuchlin helenizou-lhe o nome: Schwarzerd quer dizer “terra preta”: daí Melanchton. Aos 12 anos o menino já estava na Universidade de Heidelberg, onde obteve o seu bacharelato em Artes; aos 15 anos obtinha o Mestrado em Artes na Universidade de Tubinga. Com essa idade já se torna professor de línguas clássicas na Universidade. Fez traduções de livros e uma gramática elementar de grego. Erasmo o enalteceu e os humanistas na Europa logo começaram a falar desse jovem extraordinário. Com tal fama, a Universidade de Wittemberg cobiçou-o e aos 21 anos ele estava lá para ensinar grego, em 1518. Alguns meses antes Lutero havia afixado na porta da Igreja do Castelo de Wittemberg as suas 95 teses. O jovem professor caiu sob a influência do seu colega de cátedra. Havia entre eles uma diferença de quatorze anos, mas a amizade que cultivavam foi profunda. Lutero admirava e respeitava o saber helénico de Melanchton e este seguiu, docilmente, a orientação de Lutero, quando o rompimento com Roma se tornou inevitável. Muitas vezes dissentiam, mas Melanchton tinha arte de dissentir sem perder a calma, sem ferir o adversário: procurava, também, compreender o ponto de vista do outro, o que é também importante. Ele não era desses turrões que fincam o pé numa posição de tal maneira que nem um tractor os arreda. Com isso foi-lhe possível viver ao lado de Lutero mais de um quarto de século.
O Preceptor da Alemanha
Melanchton era, entretanto, grande demais para ficar exclusivamente à sombra de Lutero. Pôde e soube agir por conta própria. A Comissão de Augsburgo, por exemplo, e sua Defesa, são obras suas. Mais importante, entretanto, que esses documentos doutrinários, foi o seu papel na criação de um sistema educacional para a Alemanha luterana. O rompimento com Roma poderia levar as escolas alemãs ao caos. Assim aconteceria se não houvesse Melanchton. Daí ter merecido essa designação de “Praeeceptor Germaniae”. Realizou um trabalho de formidável eficiência no estabelecimento de escolas, na preparação de professores, na redacção de currículos, lançando os fundamentos da moderna educação secundária e superior da Alemanha.

Teólogo a Contragosto
O interesse de Melanchton, sem descuidar de sua vida religiosa pessoal, estava nos clássicos. Revelou-o nos primeiros autores a que se dedicou, traduzindo ou planejando traduzir-lhes as obras: Plutarco, Pitágoras, Aratus. Pensou a sério, depois que a Reforma eclodiu, em cuidar somente disso. Mas, os seus amigos, com Lutero e a docência de Wittemberg à frente, praticamente exigiram que se dedicasse à teologia e à organização da nascente Igreja Luterana. Como Jerónimo, no passado, ele deixou as letras para servir melhor a Deus. Mas foi bem diferente de Jerónimo. Era mesmo o anti-Jerónimo na brandura do seu comportamento. Foi de enorme actividade em congressos e conferências. Estando Lutero oficialmente condenado pelo Império, era Melanchton que lhe representava as ideias, como aconteceu, por exemplo, em Augsburgo. E procurando sempre ser fiel ao pensamento do amigo o que, algumas vezes, era extremamente difícil. As ideias de Lutero sobre a Ceia. Melanchton não pôde aceitar nunca. O extremismo com que o amigo defendia a doutrina da justificação pela fé era também demais para o suave Melanchton. Assim, com toda a suavidade, defendeu a boa doutrina de que as boas obras são fruto da fé. Melanchton jamais chamaria à carta de Tiago de “Epístola de palha”. Ele soube compreender o pensamento do irmão de Jesus. O seu livro “Loci Communes” é considerado, por muitos, o maior monumento teológico que o luteranismo do século XVI produziu. Assim, mesmo contra a sua vontade, transformou-se num teólogo e dos de primeira grandeza.
Quando Melanchton morreu em 1560, quatorze anos após a morte de Lutero, estava sendo objecto de controvérsias. Aquele século era áspero. A Igreja Romana em Trento estava cristalizando os velhos erros. Muitos não entendiam a placidez de Melanchton e a sua disposição de participar de conferências. Mas ele ainda acreditava na possibilidade de um acordo em que as coisas realmente importantes fossem aceites pelos romanistas, como, por exemplo, a justificação pela fé, e as coisas menos importantes, as adiaphora, como as chamava, não recebessem tanta atenção. Pessoalmente não cremos que estivesse certo, porque, embora não terminado o Concílio de Trento, ele já demonstrara suficientemente que Roma não pretendia mudar nada. Talvez Melanchton esperasse um milagre e queria fazer a parte humana desse milagre, o que estava, aliás, bem de acordo com a sua teologia. É de admirar, entretanto, a sua placidez, a sua boa vontade, a sua boa educação no trato dos sublimes temas da nossa fé, mesmo quando encontrava pela frente adversários belicosos. Homens como ele representam bem a doutrina daquele que era manso e humilde de coração.
Texto extraído da Revista Cristã Evangélica “VIDA ABUNDANTE”- Setembro/Outubro de1973

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